Tuesday, November 3, 2009

Entrevista Espiral do Tempo: Philippe Merk

O CEO da Audemars Piguet fala-nos da incursão pelo mundo das Artes e da Cultura através da recente parceria entre a marca e o Teatro Bolshoi.

A Audemars Piguet tem estado sobretudo ligada a patrocínios nas áreas desportivas. A que se deve agora esta mudança de orientação?
A plataforma ou vector de comunicação da Cultura e das Artes é algo que não tinha sido ainda muito elaborado em termos da nossa estratégia de patrocínios, no entanto, penso que temos um interesse em falar a estes consumidores finais. Esperamos e acreditamos que não se sobreponha totalmente ao que temos em termos de plataformas desportivas. Nós vemos como uma sinergia, como um inteligente acréscimo ao que já temos e se nós encontrarmos novos projectos noutros países, nós certamente iremos reforçá-la.

Quais são os pontos específicos em que Bolshoi poderá influenciar a Audemars Piguet?
Eu penso que os pontos específicos obviamente são aqueles em que nos deveríamos sentir inspirados como relojoeiros. Quando vemos isso, e estamos inspirados, eu penso que é como um gatilho o interesse, o nosso interesse como relojoeiros para originar , talvez, um relógio que esteja particularmente ligado ao Bolshoi. Isso é certamente algo em que pensamos. Penso que queremos ver como irá correr ao longo destes três anos. Se se provar como um sucesso, poderemos continuar.

Podemos esperar ver daqui a uns tempos um grande relógio Audemars Piguet aqui em Bolshoi?
Talvez em algumas localizações, em algumas salas onde temos os espaços VIP iremos ver isso. Mas como pode imaginar, as históricas dimensões destes edifícios também aqui têm que ficar como elas são. Têm substância, têm uma herança. E nós podemos tocá-las e torná-las ainda mais belas algumas vezes com determinados relógios, mas temos de ser criteriosos nisso.

Entrevista Espiral do Tempo: Eric Loth

O responsável da Graham revelou como as raízes britânicas estão na base das associações da marca ao râguebi e à Fórmula 1.

O Chronofighter pode ser considerado o modelo líder e um dos mais carismático da Graham. Pode falar-nos da evolução, das características principais e das declinações da linha Chronofighter?
O Chronofighter está realmente a tornar-se o ícone da marca. É um produto icónico. Nas suas origens nós procurámos desenvolver algo, criar algo. Naquela altura, há dez anos, foi considerado como tendo funções muito avançadas e um design um pouco extremo. Agora está a tornar-se cada vez mais num clássico. Surpreendentemente, as pessoas começaram a acostumar-se ao seu design, começaram a habituar-se à sua estética, às suas funções. Já não fazem mais perguntas como “é uma granada”, que era uma espécie de piada dos primeiros tempos. Agora acabou-se, é visto como um cronógrafo. As pessoas sabem que é um cronógrafo, que tem até uma forma divertida de activação única no mercado o que se tornou natural para a marca. Essa é a razão pela qual não desenvolvemos assim tantas novidades ou mudanças extremas no seu design. Temos procurado torná-lo cada vez mais num clássico, mas usando apenas um toque britânico, como as cores, por exemplo. Utiliza-se o verde na luneta que além de ser vistoso, tem muito de britânico. Não são apenas as funções que têm força, mas também o produto em si, através das cores, da mistura de materiais tornando-se muito luxuoso. Já não é um grande golpe no negócio, agora tornou-se compreendido. Gosto de sentir, principalmente com os GMT, onde sinto que os produtos se estão a tornar icónicos e aceites pela maioria. Noutros tempos, um ícone era reservado a uma fracção pequena de pessoas. Agora há cada vez mais pessoas a entrar no nosso mundo.

Foram criadas diversas declinações para diferentes universos...
É lógico que quando se inventa uma nova forma de conceber um cronógrafo, se procura descobrir a sua potencialidade em diversas áreas. Num primeiro momento, procurou-se um cronógrafo dito normal, depois seguiram-se cronógrafos específicos para corridas, até que se pensou na utilização do titânio para cronógrafos que tendem a ser usados por árbitros – caso do râguebi – ou por pilotos. Seguiu-se o contexto de mergulho. Com os mergulhadores, a questão a fazer é diferente: Este metal é bom, mas podemos usá-lo debaixo de água? A resposta é sim. Acabámos por ter uma série de mergulhadores não profissionais a usarem o cronógrafo até 50 metros de profundidade. Obviamente que poderiam descer mais, até cerca de 350 metros, uma vez que ele é estanque, mas de qualquer forma, o cronógrafo de mergulho tornou-se um ícone por poder ser usado debaixo de água, algo que muito cronógrafos não permitem. É um produto que pode ser usado em diferentes ambientes e o seu sistema intuitivo faz com que as opções Graham se tornem válidas e confiáveis. Não é apenas algo que desenvolvemos para se diferenciar é algo que desenvolvemos porque o cronógrafo é melhor para usarmos de forma intuitiva. Todos estes pontos de vista foram utilizados e confirmados pelos clientes e por isso o produto começou a ser aceite. Acabou por se tornar um emblema. Mas continua a ser o o cronógrafo mais racional que existe no mercado.

O Swordfish é um relógio com um aspecto e espírito completamente diferentes. Fale-nos um pouco da sua arquitectura de estilo e do novo modelo que surge agora redimensionado?
Em relação ao Chronofighter fomos tão racionais de ponto de vista técnico e uso intuitivo como já expliquei, que entrámos no projecto Swordfish com um designer irlandês que tinha um grande conhecimento do free thinking britânico que desbravou novos caminhos nas artes, na música, na moda. O forte dos ingleses consiste em transmitir uma ideia de luxo que inclui sempre um detalhe de ruptura, em inventar algo que a princípio parece irracional mas que com o tempo se revela lógico e se transforma em paradigma.
Esta é a história do Swordfish. Demos a nós próprios a liberdade de criação. A única exigência que eu tinha era trabalhar com o vidro de safira porque gosto da sua transparência, da sua força, é um material muito mágico. Não é apenas uma peça de arquitectural, é feito para ser visto, todos os dias. Seja qual for o ângulo adoptado, encontram-se detalhes. A um determinado ponto achámos que seria melhor manufacturar a peça separando técnica e design e então podemos ir mais longe em termos de acabamentos, de arquitectura e de trabalho de adaptação ao pulso. Se a Graham não fosse uma marca de raízes inglesas, nunca chegaríamos a este ponto.

E a linha Silverstone?
Para mim é muio fácil falar da linha Silverstone por estar ligada a velhas paixões minhas. Para além da relojoaria, que é a minha primeira paixão, eu gosto muito de corridas. Eu sou um piloto, talvez não seja o melhor, mas gosto de entrar no carro, fazer com que tudo aconteça e levar a adrenalina ao máximo. Nas corridas, as cores têm um papel essencial: as equipas reconhecem-se pelas cores porque elas são diferentes. Na minha perspectiva as cores são muito importantes. As funções são primordiais, mas também é necessário reconhecer. Para tal os números são insuficientes, por isso, o que salta mais à vista - mesmo em corridas como a Fórmula 1 ou corridas GT - são as cores: todos os carros têm uma cor diferente. Este aspecto dá um carácter atractivo à corrida os próprios pilotos têm assim mais facilidade em se aperceberem quem os está a ultrapassar ou quem estão a ultrapassar. Isto inspira-me. As cores da corrida, os detalhes técnicos, a sofisticação extrema. É necessário conhecer muito bem o carro. Travões, pneus, tudo. Eis a razão pela qual o relógio é como é. O Silverstone é o cronógrafo mais complicado que existe em termos de dimensão industrial. Tem uma data grande porque é mais fácil ler, tem um segundo fuso horário, que é uma das principais funções, depois tem um cronógrafo, função essencial para o contexto de corrida, com os segundos e minutos bem demarcados, e uma função flyback que permite medir uma volta e precisar de imediato se estivemos bem ou estivemos mal nessa volta. É necessário apenas um botão para os ponteiros retornarem a zero. Não é necessário pressionar Start, depois Stop e depois Reset. Tudo isto motiva-me muito na concepção dos modelos Silverstone. O Graham Silverstone não é um relógio electrónico, é um relógio mecânico, tal como um carro. Quanto mais se corre – como na Fórmula 1 - mais elementos mecânicos se encontram e menos elementos electrónicos. E é interessante esta ideia de dar o máximo ao nível técnico num relógio, muito bem pensado mecanicamente, mas também muito funcional com cores bem marcadas. Todos estas aspectos se encontram na linha Silvestone.

O que levou a Graham a associar-se ao mundo do râguebi?
O râguebi foi a primeira grande acção que nós fizemos. Pensámos no râguebi por ser uma modalidade secular, viril, de prestígio, com muito fair-play, onde os árbitros são completamente respeitado e, neste sentido é um desporto muio britânico. Mas tem piada o facto desta disciplina nunca ter atraído o sector relojoeiro, talvez por ser muito como a Graham: muito à frente. Apreciamos muito este aspecto. O râguebi não pode ser manipulado. Nele interagem homens robustos, fortes, que jogam de acordo com regras, mas onde há uma componente de rudeza. Entrámos em contacto com o nosso distribuidor inglês, que fez a ponte para a organização. Todos acharam uma excelente ideia e fomos os primeiros a pensar assim. O Torneio das Seis Nações é uma enorme organização e comemora o seu 100º aniversário no próximo ano – na sua origem integrava apenas cinco nações e a Itália aderiu há cerca de 10 anos. Há mais de dois milhões de espectadores por jogo durante o campeonato das Seis Nações. Seguimos então em frente e agora estamos integrados. E o que é que se vê? Todos os árbitros usam um Graham. Fizemos uma edição limitada pensada para eles. O modelo é em titânio para ser mais leve; os árbitros já têm de correr muito! Os contornos inconfundíveis do Chronofighter Six Nations são bem visíveis através das imagens e nota-se bem quando os árbitros accionam a alavanca que inicia a cronometragem. Os próprios árbitros asseguram-me com entusiasmo que finalmente têm um cronógrafo que podem accionar sem ter de olhar para ele, tamanha é a facilidade de utilização. Temos aqui uma oportunidade: a incursão numa modalidade histórica, muito britânica, muito masculina e de grande fair-play. Sinto-me muito bem lá e continuaremos no próximo ano.

Em relação à Fórmula 1, com toda a componente britânica e ADN racing da Graham, foi igualmente uma associação genial...
Nós não entrámos na Fórmula 1, nós fizemos uma parceria com a Brawn GP. Existe uma equipa de Fórmula 1 e nós estamos interessados nessa colaboração porque a Brawn GP, Ross Brawn, a Graham e eu próprio funcionamos muito bem todos juntos. Estamos a encontrar caminhos. Eles provaram no primeiro ano que conseguiam. Nós não sabemos porque, nesta altura ainda faltam duas corridas - Brasil e Abu Dabi - mas há algumas hipóteses de conquistarem o título. Mas não é por acaso que isto acontece, porque eles têm trabalhado muito tecnicamente, eles têm novos conceitos, eles quebraram algumas regras, exactamente como nós. Esta é a razão pela qual quando me encontro com Ross e discutimos algum assunto, é fácil entrarmos em acordo, muito rapidamente. O melhor da nossa associação é que ultrapassa em muito o marketing, as edições limitadas de relógios ou a inscrição Graham nos retrovisores dos carros – eles têm paixão pela micromecânica relojoeira e adoram colaborar, com sugestões acerca dos materiais e das soluções estéticas. É uma permuta que inclui visitas mútuas às nossas instalações e às deles. Esta partilha, motiva-nos. Claro que a visibilidade da Brawn GP na Fórmula 1 é enorme e se olharmos para as incrições Graham nos espelhos de Jenson Button e Rubens Barrichello, vê-se que a Graham está reforçar a sua marca através desta parceria britânica, uma vez que a Brawn é uma equipa inglesa por herança e por gestão e nós somos uma ingleses por herança e parte do capital. É por isso que nos sentimos tão bem juntos e e penso que nos está a ajudar e penso que também pode ajudar a Brawn a desenvolver a sua imagem porque este também é o primeiro ano para eles. Não é apenas um passo na Fórmula 1 é realmente caminhar com uma equipa britânica e isso é bom porque eles ganham e eu gosto.

Também foi desenvolvida uma colecção Brawn GP...
Fizemos uma edição limitada em conjuntos de 100 exemplares de quatro modelos diferentes que estamos agora a distribuir no mercado o que sognifica que apenas alguns pontos terão acesso a esta edição. Mas já estamos a planear novos produtos, todos edições limitadas, com um design desenvolvido por nós e inspirado nos carros de Ross Brawn com a sua aprovação. E estamos a pensar numa colaboração em termos técnicos para as próximas edições limitadas. Queremos fazer com que o próximo projecto se revele como algo de único que reflita a associação entre duas equipas britânicas – uma de relojoaria e outra da Fórmula 1 – para a concepção de novos produtos.

Qual é a sua perspectiva face ao mercado português?
Para mim Portugal tem algo de pessoal, porque é um lugar onde vou quase todos os anos de férias. Gosto do Algarve, gosto das pessoas, vocês têm imensos campos de golfe, a costa marítima é fantástica, a comida é fantástica, os vinhos que têm lá são fantásticos - um em particular, o Pape que bebi há uma semana atrás é inacreditável, é óptimo. Isto é tudo Portugal. Tem algo de pessoal. O mercado obviamente é distante dos EUA ou Japão, mas é um mercado onde encontramos pessoas apaixonadas que respondem às nossas próprias paixões. Há uma diferença em termos de dimensão de mercado em relação a outros países, mas a qualidade das relações estabelecidas é também muito importante para o nosso aperfeiçoamento. É isto que eu encontro em Portugal: uma qualidade de relações que permite à Graham evoluir. Mais do que umas férias, espero um dia poder desenvolver um evento lá, como um evento de competição automóvel.

Monday, November 2, 2009

"O Fazedor"*, por Paula Moura Pinheiro


Dizem os conhecedores que François-Paul Journe, o marselhês radicado em Genebra, está entre os cinco melhores relojoeiros do mundo. Mas o que torna único o seu caso é muito mais do que o seu talento singular, é uma ousadia rara. Marcámos encontro em Genebra, Rue de l’Arquebuse.

As mãos de François-Paul Journe são enormes. Duas grandes fateixas nodosas como nunca se suporia ser possível num relojoeiro. Mais tarde, dir-me-ão que um relógio se faz com a cabeça. Com ideias. Não exige dedos de pianista. E a verdade é que François-Paul Journe é um virtuoso que criou alguns dos mais revolucionários movimentos da alta-relojoaria das últimas décadas: Chronomètre à Résonnance e Tourbillon ‘Secondes Mortes’. Com as suas mãos, sim, mas sobretudo, e sempre, com a sua cabeça.
Não, François-Paul Journe não é um herdeiro, não é um dos altos-burgueses recostados no brilho de um apelido famoso pelas criações de homens mortos há muito, como os que encontramos no selecto meio da alta-relojoaria suíça, com a sua dicção perfeita, os seus cabelos loiros grisalhos, as suas impecáveis gravatas de seda e os seus exércitos privados de técnicos e especialistas. François-Paul Journe é homem que se apresenta de bata azul-escura, como um mecânico de automóveis, com o rosto talhado de um marinheiro, o olhar cerrado de um franco-atirador e a dureza provocadora dos self-made. Um marselhês radicado em Genebra que, como ele mesmo conta, poderia ter sido marceneiro, porque detestava a escola, mas que as circunstâncias familiares (um tio restaurador) conduziram à relojoaria. Um marselhês cuja audácia o levou a dar o salto que, há já várias gerações, ninguém se atrevia a dar: François-Paul Journe fundou a sua própria Casa, a sua marca, a sua assinatura. Usou, para isso, não o poder do capital, que não tinha, mas o poder do saber, o seu exímio conhecimento do métier e a sua capacidade inventiva, que lhe valeram a aposta e o investimento dos sempre necessários capitalistas.
François-Paul Journe ‘inventou e fez’, expressão que, em latim (Invenit et Fecit), é a insígnia da Casa F.P.Journe, que integra o logotipo da marca e que mandou bordar no peito da sua bata azul-escura, para que ninguém esqueça a diferença: são criações suas os mecanismos dos relógios que levam o seu nome.
O século XX, sobretudo a segunda metade do século XX, tratou de cindir radicalmente estas duas dimensões: quem tem o poder financeiro contrata o talento, mas raramente o talento encontra condições para se estabelecer autonomamente. É o império dos produtores sobre os realizadores, a subordinação do comercial ao criativo. Desde a idade de ouro da relojoaria, há cerca de duzentos anos, que não se testemunhava esta ousadia: o inventor dos movimentos, das caixas, dos mostradores, das complicações relojoeiras assumir, também, a produção dessas invenções.
É como se um cientista montasse o seu próprio laboratório e tratasse de comercializar as suas descobertas.
François-Paul Journe fê-lo há cerca de seis anos. Quando tinha pouco mais de 40, e, hoje, os 700 relógios que produz por ano são objecto de uma renhida procura por parte dos mais esclarecidos coleccionadores. Gente disposta a pagar 200 mil euros por um relógio de pulso, em ouro ou platina, mas sem diamantes.
Na Rue de l’Arquebuse, no centro de Genebra, o edifício de dois andares do século XIX onde funciona a oficina F.P.Journe é uma espécie de metáfora da conquista suada de François--Paul. Adquirido com inquilinos, tem sido um permanente ‘work in progress’ – as obras avançam à medida que os inquilinos vão saindo, e o espaço da oficina tem sido ganho assim, taco a taco, sem que alguma vez se tenha parado de produzir.
Na sua impecável bata azul-escura, François--Paul conduz a visita guiada pelos intestinos
desmantelados do prédio. Atravessa, orgulhoso, a cacofonia das máquinas afagadoras, dos berbequins, o cheiro agudo da madeira nova, detém-se nos projectos da electricidade, do aquecimento, do sistema de aspiração do pó – conhece cada milímetro daquela casa como se fosse uma extensão do seu próprio corpo. Está a construí-la, como ao seu nome. Com o máximo de empenho e na pista da excelência, o edifício e o modus operandi da produção estão a ser investidos da melhor tecnologia disponível.
Entrincheirados na zona onde, por agora, funciona toda a produção, em aquários de vidro e madeira, jovens cabeças desviam os olhos das lupas, curiosos à nossa passagem. François-Paul não tem mais de 40 artesãos e prefere-os recém--saídos das escolas de relojoaria, ou ainda estudantes, para poder ser ele a ensiná-los à sua maneira. Tem planos para criar a sua própria escola nas instalações futuras da oficina. Ele, que viu descolar a sua paixão e a sua ciência sob o impulso de um velho tio, reputado restaurador relojoeiro com atelier em Saint-Germain-des-Prés, sabe melhor que ninguém que a boa formação em relojoaria, para lá da escola especializada – que também fez, em Marselha primeiro, em Paris depois – não dispensa a tutela de um mestre nem o trabalho contínuo em contexto real.
Claro que o génio é outra coisa. Apesar de ter revelado, desde o início, grande facilidade para a mecânica, foram precisos alguns anos para que nele emergisse a febre da invenção. Não muitos anos. Trabalhava em Paris com o tio, em relíquias que conhecedores do mundo inteiro vinham entregar-lhes para recuperar, quando começou a conceber, paralelamente, de moto próprio, o seu primeiro relógio: de bolso, com turbilhão. Acabou-o mais de um ano depois, em 1982, tinha 25 anos. O seu segundo original nasceu em 83 e o terceiro em 1984. Em 1985, instala-se por conta própria, no seu primeiro atelier, na Rue de Verneuil, em Paris. Aceita encomendas para criar relógios singulares, já está quase exclusivamente na calha da concepção, só admite restauros excepcionais. Nos anos seguintes constrói um relógio de pulso planetário, um relógio de sala para John Asprey, ganha prémios importantes, associa-se a um grupo de amigos e começa uma manufactura na Suíça. Investigam e concebem para as marcas.
Em 1991, cria um relógio de pulso com o mostrador descentrado que, passado pouco
tempo, as grandes casas relojoeiras começam a copiar algo descaradamente. François-Paul não tem qualquer hipótese de combater os gigantes. Sente-se, segundo diz, como um pequeno barco à mercê dos caprichos do mar. A irritação, a frustração de ver as suas criações desenvolvidas e exploradas por terceiros começam a espicaçá-lo. Não pára de inventar, mas está tomado pela ideia de assinar aquilo que cria.
Em 1999, lança a primeira colecção com o seu ‘ferro’: uma colecção de cronómetros com
a chancela F.P. Journe, que já leva a insígnia Invenit et Fecit. Ainda em 1999, apresenta o primeiro relógio de pulso com turbilhão e corda de igualdade com a chancela J.P. Journe. É, portanto, em 1999 que nasce a Casa F.P. Journe.
O salto está dado. Não se livra ainda de ver as suas ideias aplicadas, com pequenas variações, pelos golias do sector, mas os conhecedores já identificam um genuíno F.P. Journe. E, sem
que ninguém o assuma, François-Paul Journe é a nova ameaça no meio.
Não que tenha a intenção de crescer muito mais. Firmar-se como um nome incontorná-
vel da alta-relojoaria, fundar a sua própria escola e chegar aos 1300 relógios por ano são as
metas que se impôs. Não é a ambição de um industrial. É a ambição, bem mais delicada e complexa, de um autor. «Só quero andar suficientemente depressa para cortar caminho a quem me copia».

* Publicado em Espiral do Tempo. Nº 17

De Gutenberg a Le Corbusier, por Fernando Correia de Oliveira*

Estação cronográfica

A profissão de relojoeiro tem sido, ao longo da História, viveiro de mentes criativas e base técnica para outros voos, nas mais variadas actividades. Como temos vindo a demonstrar nesta série de artigos «Utopia Mecânica», as comunidades relojoeiras têm sido, elas próprias, fonte de inspiração de movimentos filosóficos, sociais e políticos, dada a especificidade deste universo que sempre se rodeou de saber, precisão e solidariedade.
Façamos, pois, um ‘vol d’oiseau’ sobre mais algumas personalidades que tiveram relação directa com a relojoaria.
Para começar, Johann Gutenberg (1400-1468), nascido na Alemanha, no seio de uma família que se dedicava à transformação de metais. O inventor da tipografia pertenceu à guilda dos ourives de Mainz, sua terra natal, e a sua experiência no fabrico de peças de relojoaria, que tinham de obedecer a critérios de qualidade e homologação, ajudou-o na execução da ideia dos tipos móveis que eram, neste caso, em madeira e que, depois de alinhados, imprimiam os textos na folha de papel. Isto através de prensas de rosca, já anteriormente usadas na prensagem de uvas ou de azeitonas.
Já Henry Ford (1863-1947) revolucionou a maneira como se fabricavam automóveis, criando a linha de produção – operários especializados passaram a montar peças num chassis, por determinada ordem e num ritmo predeterminado, poupando tempo. Isto só foi possível porque as peças estavam estandardizadas e eram intercambiáveis. E onde foi Ford buscar estas ideias? À relojoaria.
O futuro fundador da primeira grande fábrica de produção em massa de automóveis foi relojoeiro, na juventude. Segundo reza a lenda, era mesmo um relojoeiro de eleição, capaz de montar e desmontar, de olhos vendados, um relógio de bolso. Terá mesmo chegado a inventar um relógio de bolso que iria vender a um dólar, mas nunca chegou a produzi-lo, porque pensou que as pessoas não acreditariam que se tratava de algo de qualidade, sendo o preço tão baixo.
O interesse de Henry Ford pela relojoaria não se esbateria com o sucesso que fez dele um dos grandes capitães da indústria do século XX norte-americano. Ford mandou construir, em 1935, o Swiss Chalet, em Greenfield Village, Dearborn, no Michigan, uma vivenda inspirada na arquitectura suíça do Jura, e onde eram feitos e reparados relógios. Pierre Cartier, seu amigo, dono da casa Cartier, ajudou-o nesse projecto. A casa ainda existe, faz parte do complexo do Museu Henry Ford e alberga cerca de 100 peças de relojoaria.
Ainda no ramo automóvel, há Louis Chevrolet, que poucos sabem ser suíço. Nascido em 1878, faleceu em 1941, nos Estados Unidos. Filho de um relojoeiro, Chevrolet era natural de La Chaux-de-Fonds, cidade bem no coração da indústria relojoeira helvética. Durante a juventude, foi também relojoeiro, ajudando na oficina do pai, passando, depois, a construir, reparar e correr em bicicletas. Isto até descobrir o mundo dos automóveis. Emigrou em 1900 para o Canadá e, depois, para os Estados Unidos, onde aliava a profissão de mecânico à de piloto de competição. Correu com carros da General Motors, até que o fundador da GM, W. C. Durant, se desligou da companhia e criou uma nova. Nasceu a Chevrolet Motor Car Company, em honra ao seu engenheiro-chefe, pessoa que encarregou de fazer «o carro dos seus sonhos». Chevrolet viria a abandonar a companhia em 1913, por não querer fazer carros baratos, mas apenas automóveis de eleição, porém a marca ficou, até hoje, lembrando o seu nome.
Por falar de La Chaux-de-Fonds, um conterrâneo de Chevrolet teve também as suas raízes na relojoaria, mas alcançou a fama na arquitectura. Charles-Edouard Jeanneret, que escolheu para si a alcunha ‘Le Corbusier’. «Aquele que se parece com um corvo» nasceu na cidade relojoeira encravada no Jura, e era filho de um relojoeiro local e de uma professora de piano. Graduado pela escola de artes aplicadas local, nela aprendeu o ofício de gravador de caixas de relógios, tendo ganho prémios internacionais nessa actividade. Le Corbusier prossegue, ali, estudos em arquitectura, decoração monumental e decoração de interiores. Data de 1905 a construção da sua primeira vivenda em La Chaux-de-Fonds. A cidade orgulha-se de um património arquitectónico vasto, fruto da actividade de Le Corbusier na região.

*Investigador do Tempo, da Relojoaria e das Mentalidades

À prova de água, por Pedro Ribeiro*

Os movimentos que equipam os relógios, sejam eles simples ou complicados, de quartzo ou mecânicos, baratos ou caros, são muito sensíveis e necessitam de ser protegidos. A caixa é o elemento do relógio que tem por função proteger a máquina dos choques, das poeiras, do magnetismo e, principalmente, da entrada de água. Quando esta entra no relógio e lá permanece sem haver uma rápida intervenção técnica, é quase certo que os danos causados no movimento serão devastadores. Num relógio electrónico de quartzo, as avarias podem ser de ordem eléctrica (pilha, circuito impresso) ou mecânica (rodagem), caso se trate de um relógio com indicação analógica. Nos relógios mecânicos, os danos são em geral mais sérios, porque os mecanismos são compostos por muito mais peças e muitas delas são de aço. Como os aços utilizados no fabrico de peças não são inoxidáveis, é normal que oxidem (enferrujem) quando estão em contacto com água ou humidade em excesso. As peças ferrugentas não podem ser recuperadas, pelo que devem ser substituídas. Por vezes, o estado geral do movimento é tão mau que só com troca de máquina se pode solucionar o problema. Se estivermos a falar de um movimento que custe 50 euros, o ‘estrago’ não é assim tão grande, mas, caso se trate de uma máquina de cronógrafo automático, o seu custo começa logo nas centenas de euros.

Desde sempre, os fabricantes de relógios têm vindo a preocupar-se com este problema. Para complicar a tarefa, não nos esqueçamos de que existem caixas de todos os tamanhos e feitios, produzidas em materiais diferentes. Todos aqueles que pretendem que os seus relógios sejam considerados ‘estanques’ ou ‘à prova de água’ devem respeitar normas internacionais. Estas normas, NIHS 92-10 e ISO 2281, têm vindo a ser modificadas ao longo dos tempos para poderem acompanhar as normais evoluções nesta área. Para que um relógio possa ser considerado estanque, tem de passar vários testes: de pressão, de temperatura e de tensões mecânicas. Em relação ao primeiro, é feito de duas maneiras: a ‘seco’ e dentro de água. Tanto numa quanto noutra, vamos submeter a caixa do relógio a uma determinada pressão e quanto maior for a pressão mais a caixa se deforma. É relativamente fácil perceber por que razão a caixa altera a sua forma quando sujeita a uma pressão. Quando aplicamos uma pressão de 3 bar (ou 3 atm), estamos, simplesmente, a ‘carregar’ a caixa com uma força equivalente a três quilogramas por centímetro quadrado. Quando nos encontramos dentro de água, a 30 metros de profundidade, é esta a pressão a que o relógio é sujeito. Após cada teste de pressão dentro de água, efectua-se um teste de condensação para controlar se não houve entrada de humidade na caixa. Esta é aquecida a uma temperatura compreendida entre os 40 °C e os 45°C e de seguida coloca-se no vidro uma gota de água à temperatura ambiente. Se aparecer humidade na face interior do vidro, a caixa chumba automaticamente o teste.

A caixa é ainda colocada dentro de água, a uma profundidade de dez centímetros, durante uma hora. Aos elementos móveis da caixa, como a coroa e os botões, será aplicada uma pressão, perpendicular ao seu eixo, de 5 Newtons (aproximadamente 0,5 kg), durante cinco minutos. Para terminar, a caixa é colocada dentro de água a diferentes temperaturas (40 °C, 20 °C). Para os relógios de mergulho existe uma norma própria NIHS 92-11 (ISO 6425).

Já vimos que os fabricantes fazem o papel deles. Como em tudo na vida, uns melhor e outros menos bem. Mas está claro, um relógio não se mantém eternamente igual ao que era quando foi comprado. Mesmo sem ser utilizado, vai-se alterando. Para impedir que a água entre nas caixas, estas foram equipadas com vários vedantes, normalmente feitos em borracha (para o fundo e a coroa) ou em plástico (para o vidro mineral ou de safira). Estes elementos vão secando com o tempo e perdem facilmente as suas propriedades. A partir do momento em que isto acontece, as caixas tornam-se vulneráveis à entrada de água ou humidade. O tempo que demora um vedante a ‘secar’ é bastante variável, em grande parte depende dos hábitos do utilizador do relógio. Se for uma pessoa que usa pouco o relógio, que raramente o expõe a grandes variações de temperatura e não o mergulha na água, principalmente salgada, pode proporcionar uma ‘longa vida’ aos vedantes do seu relógio. Mas atenção, estamos a falar de um tempo de duração que poderá variar entre os dois e os quatro anos. Desde que a utilização do relógio seja mais intensiva, este tempo de ‘vida’ diminuirá, e poderá mesmo, como por exemplo nos relógios de mergulho, aconselhar-se a mudança de vedantes e novo teste de estanquicidade após cada época de mergulho. Como acontece com outras coisas, a saúde de cada relógio vai depender directamente do tipo de uso que lhe for dado. Antes de terminar, gostaria de deixar alguns conselhos, para que possa evitar que a água danifique o movimento do seu relógio.
- Quando o relógio sofreu uma pancada e detecta que a coroa ou os botões (no caso de um cronógrafo) estão tortos, o melhor é enviar o relógio à assistência técnica para que este seja analisado.
- Se dá ao seu relógio mecânico uma utilização intensiva, pense em mandar fazer uma revisão a cada dois anos e no caso de um relógio electrónico exija um teste de estanquicidade (com mudança) de vedantes cada vez que muda a pilha.
- Se alguma vez viu água ou humidade no interior do relógio, pode tentar secá-lo com um secador, mas não pense, caso o relógio continue a trabalhar, que está tudo bem. É raro que a água não deixe marcas da sua ‘passagem’, que pode afectar o mostrador, os ponteiros e o movimento.
- Um dos piores hábitos que podemos ter é o de querermos acertar as horas ou o calendário quando temos o relógio no pulso. O acesso à coroa não é fácil e quando a queremos puxar, por vezes, não conseguimos fazê-lo correctamente. O que acontece com frequência é que acabamos por ficar com a coroa torta. A partir deste momento, a coroa fará mais pressão num dos lados do vedante deixando o outro lado mais vulnerável.
- Tenha cuidado se toma duche ou se dá grandes mergulhos na piscina com o relógio, pois as forças que a água pode aplicar sobre a coroa e / ou os botões podem ser muito superiores às que foram utilizadas nos testes (ver normas), permitindo que a água entre facilmente.

*Responsável Técnico da AutoQuartzo

Big Brother is WATCH’ing , por Miguel Seabra

Um quarto de século após o ano que deu nome à obra ‘1984’ de Georges Orwell, parece que o preocupante lema ‘Big Brother Is Watching You’ foi completamente subvertido: actualmente, ninguém parece cioso da sua privacidade e todos querem comunicar a sua personalidade. Isso é válido tanto para leigos como para profissionais, mas sobretudo para empresas que vêem na internet um modo de publicitar produtos e propagandear conceitos.
Enquanto jornalista, o advento da internet foi para mim uma bênção e uma maldição. Ainda me recordo de trabalhar com a fita do telex ou posteriormente de carregar uma impressora portátil que me permitisse enviar o trabalho por fax; gostava de fazer pesquisa e confiava na minha memória selectiva para fazer a diferença. Agora, o envio é instantâneo através do correio electrónico, tal como instantâneas são as fontes para um qualquer assunto graças aos motores de busca que facilitam a tarefa dos preguiçosos e dos copiadores. Já na presente década, qualquer tipo de site se tornou mais sofisticado e desataram a proliferar os blogues dotados de opiniões mais irreverentes; actualmente estamos já numa outra fase: as redes sociais personalizadas promovem um serviço mais completo e interactivo – com o mundo inteiro a ver, se assim o desejar…
Hoje em dia não dispenso o Facebook e o Twitter como ferramentas de comunicação – tanto na minha vida pessoal como profissional. Sim, tanto um como outro podem consumir disponibilidade e por vezes a situação atinge laivos de dependência, para não falar da canibalização de contactos e aproveitamento indevido de conteúdos. Mas por outro lado permitem ganhar tempo: graças a uma boa selecção de contactos, temos todas as novidades partilhadas à nossa frente, desde a informação personalizada a links para assuntos interessantes. Outro aspecto interessante prende-se com a possibilidade de encontrar através da rede gente que se pensava perdida ou obter proximidade com gente que se julgava inacessível – a teia é mesmo impressionante, unindo o que o tempo e o espaço separam.
O grande detractor
Miguel Sousa Tavares é um detractor das redes sociais e quase que ridicularizou o Facebook na sua crónica do Expresso (link: http://aeiou.expresso.pt/lets-face-it=f530825). Como habitualmente, arranjou um conjunto de argumentos aparentemente pertinentes para defender a sua tese. O problema é que ele gosta de opinar mesmo sobre assuntos que não conhece bem, e, seguramente, não conhece bem o Facebook porque não é utilizador; já o vi dissertar poeticamente e descrever convincentemente ponto por ponto a fase final do quinto set de uma vitória de John McEnroe sobre Björn Borg em Wimbledon – sem que isso tenha acontecido, porque Borg venceu em cinco partidas (1980) e McEnroe impôs-se em quatro sets (1981) nas duas únicas finais jogadas entre ambos na relva sagrada do All England Club. Claro que há, sobretudo, muita gente que utiliza o Facebook e o Twitter por motivos de lazer, o que parece irritar solenemente Miguel Sousa Tavares. Eu utilizo ambos os meios de modo profissional nas minhas duas áreas de intervenção – o ténis e a relojoaria.
Resisti ao Facebook durante um bom par de anos, mas desde Abril que o aproveitei como tribuna binária para publicitar/partilhar gostos, artigos ou eventos… e até retomei contacto com amigos que tinham desaparecido de circulação e estão radicados fora do País, como o ex-tenista Riva da Silva. Também já marquei encontros através do Facebook, como por exemplo uma entrevista com o criador relojoeiro Jean-François Ruchonnet. Entre os meus contactos, tenho muitos colegas jornalistas do ténis e da relojoaria, mas também tenistas e relojoeiros, publicações e sites de ambas as áreas. Infelizmente, também há muita gente a entulhar-me a página com informações sem interesse e irritantes joguinhos tipo FarmVille ou intragáveis questionários; no entanto, aprecio alguns convites que me são endereçados: basta um clique e vou automaticamente para a lista de convidados de um evento qualquer.
A minha adesão ao Twitter foi rápida, uma vez que já era conhecedor das vantagens do Facebook. Já não há muito tempo para ler blogues ou sites – o micro-blogging é conciso, instantâneo, obriga a mensagens curtas até 140 caracteres que podem incluir links. É como enviar sms para o mundo e o mundo poder replicar de modo controlado: daí ser cada vez mais o meio de comunicação de gente importante que tem muitos ‘seguidores’, mas que só ‘segue’ quem quer. Não sou famoso, mas tenho conseguido uma melhor interacção com quem segue os meus comentários de ténis no Eurosport ou escritos nas mais diversas publicações e até agradeço muita informação disponibilizada que constitui preciosa ajuda.
Urgência do agora
A dependência psicológica da Internet foi potenciada pelos telemóveis da nova geração, que incluem aplicações para o Facebook, o Twitter e outras redes socioprofissionais do género. A ânsia que denomino ‘urgência do agora’ domina a sociedade actual e já nada é como antes – um sinal dos tempos. Como costumo dizer nos meus comentários, «os campeões adaptam-se». Adaptar-se-á um dia Miguel Sousa Tavares, ou acontecer-lhe-á o mesmo que ao seu herói Luís Bernardo em Equador? O escritor/colunista deveria saber melhor do que ninguém que as mentalidades mudam.
Como em qualquer área, a utilização do Facebook e do Twitter depende de uma gestão adequada: é preciso bom senso e assertividade para não sucumbir aos diversos tipos de dependência – desde a sofreguidão informativa ao exibicionismo. Existem vários patamares de comunicação, desde os privados aos públicos no âmbito da respectiva conta; o Facebook e o Twitter constituem também um processo gratuito e eficaz que nas minhas viagens, por exemplo, me permite contactar em tempo real a partir de qualquer parte do mundo.
Actualmente, os próprios websites já incluem links directos para o Facebook, Twitter e semelhantes. No caso da relojoaria, privilegio sobretudo as pessoas por trás das marcas, os blogues independentes e as opiniões extra-institucionais. Um dos exemplos de abrangência da teia que mais me surpreendeu foi ter lido no Twitter um comentário do tenista sueco Robin Soderling, finalista de Roland Garros, que confessava ter comprado um novo relógio – um Royal Oak Offshore; fui aos (poucos) contactos que ele tinha e adicionei o Twitter de um site americano que me surpreendeu – Hodinkee.com, que incide particularmente sobre modelos vintage e que até já publicitou a excelência dos meios www.espiraldotempo.com e www.espiral.tv.
Quem quiser surfar na vaga, que aproveite. No fundo, trata-se de aproveitar os privilégios da liberdade de escolha – algo que não existia no romance orwelliano…

Já agora, para quem me quiser seguir:
http://www.Twitter.com/MiguelSeabra
http://www.Facebook.com/MigSeabra

Monday, September 7, 2009

O Tempo de Paula Rego

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A Galeria 111, em Lisboa, inaugura a 10 de Setembro a exposição “Les Planches Courbes e Outras Histórias” que reúne obras recentes de Paula Rego.
A este propósito, lembrámo-nos de relembrar a incursão que a pintora portuguesa fez há uns anos pelo mundo da relojoaria quando foi convidada para assinar a terceira edição da série exclusiva Reverso/Arte Portuguesa da Jaeger-LeCoultre, depois de Júlio Pomar e de Manuel Cargaleiro. Na frente o mostrador, no verso uma mulher dá um beijo a um pelicano, numa imagem que reflecte uma certa violência sexual. Questionada sobre a escolha desta imagem para representar o tempo, na altura Paula Rego respondeu: “trata-se de algo que se passa eternamente, desde sempre, como se fosse um ritual: um que domina o outro, é o tempo eterno. Mas quando se fala em tempo, eu normalmente também imagino um homem velho de barbas com uma foice. Se é uma caveira com um esqueleto, então representa a morte – mas o tempo não é um esqueleto, é um homem... é assim que imagino o tempo.”
Já lá vão sete anos, mas muito mais foi criado por Paula Rego desde então. Nada como uma visita à Galeria 111 até Novembro para descobrir os caminhos de agora da pintora portuguesa.

Visite o site da Galeria 111