A relojoaria mecânica de prestígio continua a florescer e tem sofrido um ímpeto adicional com a crescente voracidade do mercado chinês. Num ano de tendências mais clássicas, muitas reinterpretações de modelos do passado e também vertiginosas inovações técnicas, eis a seleção da Espiral do Tempo.
O ano relojoeiro de 2011, à imagem da economia mundial, esteve muito virado para o Oriente. Não há dúvida de que a China é encarada como o novo
El Dorado para as marcas de luxo (e não só); no que diz respeito à relojoaria tradicional, o novo mercado chinês ainda anda à procura de enriquecer o seu conhecimento e de descobrir novas fronteiras, pelo que primariamente tem solicitado um tipo de produto mais clássico e de complicações simples em formatos médios. Ou seja: para além da reação natural dos vários mercados maduros (sobretudo o europeu e o americano) aos anos de excesso dominados pelos ‘ovnis relojoeiros’ e à loucura do ‘bling bling’ sobredimensionado, os tempos apertados da recessão conduziram a um maior recato e, ao mesmo tempo, o peso do mercado chinês reforçou essa tendência – pelo que se verificou um evidente regresso ao classicismo. Modelos clássicos (inspirados nas décadas do
Art Déco nos anos 20 e 30, ou nos anos 50 e 60), com mostradores em
guilloché, não muito grandes, com pequenas complicações interessantes e simples de deslindar… sem esquecer as inúmeras reedições históricas e reinterpretações de modelos do passado que marcam decisivamente uma das mais relevantes tendências atuais. E o interessante é que as mulheres chinesas também parecem interessar-se pela relojoaria mecânica, pelo que houve igualmente muitos modelos criados para satisfazer esse apetite e, claro, o da mais sofisticada clientela feminina graças a interessantes complicações relojoeiras ditas poéticas...
A tendência mais conservadora e a ‘Síndrome da China’ verificaram-se sobretudo nas coleções das marcas mais ‘
mainstream’ apresentadas no Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH) em Genebra (janeiro) e em Baselworld (março). Mas, paralelamente a esses dois grandes palcos que constituem os maiores certames da indústria relojoaria mundial, houve também muitos expositores independentes que tentaram marcar a diferença pela inovação e irreverência (alguns deles reunidos no Geneva Time Exhibition, paralelamente ao SIHH) através de produtos conceptuais, prodígios técnicos e complicações surpreendentes. Também houve várias novidades absolutas na área da micromecânica, como não podia deixar de ser.
É impossível mencionar todos os relógios de que gostámos e que mereciam ser referidos – por isso, aqui está uma seleção da nossa seleção com preferências em diversas áreas.
Relógio do AnoUm escalão subjetivo que tem a ver mais com empatia do que com mérito técnico e estético ou com o próprio peso da marca – tem a ver sobretudo com o fator emocional. A
Patek Philippe é uma marca de reputação lendária e apresentou um trio sensacional em 2011 com preços a condizer: o mais bonito e barato (125 mil euros…) do triunvirato caiu-nos no goto e é aquele que é, para nós, o relógio do ano.
(Patek Philippe Ref.5270)Trata-se do
Ref. 5270G, um calendário perpétuo com cronógrafo numa caixa em ouro branco com 41 milímetros de diâmetro de grande classicismo salientado pelas asas em forma de gota. Um relógio para a vida! Destaque especial também para o
Zeitwerk Striking Time, da
A. Lange & Söhne, e para o
Portuguesa Sidérale Scafusia, da
IWC.
ConceptuaisA TAG Heuer conseguiu em Baselworld a mais concorrida conferência de imprensa relojoeira de sempre, não só pelos participantes
in loco mas também porque foi transmitida pela página oficial da marca no Facebook: foi desvelado o
Mikrotimer Flying 1000, prodígio cronográfico capaz de medir tempos até ao milésimo de segundo… depois de em janeiro a própria
TAG Heuer já ter estabelecido um novo recorde de contagem mecânica com o
Mikrograph (centésimo de segundo).
(TAG Heuer Mikrotimer Flying 1000)
Ou seja, passou-se da Lua a Marte no espaço de dois meses! Restava saber quando seria a ‘aterrissagem’ e o mais surpreendente é que ambos os modelos não se fizeram esperar: o Mikrograph já está a ser comercializado há um tempo, enquanto o Mikrotimer ainda se manteve como
concept watch durante alguns meses. No entanto, quando arrematou o Grand Prix d’Horlogerie de Genève na categoria de relógio desportivo já estava em fase de produção numa edição limitada a 60 exemplares.
ReediçõesEntre as incontáveis reedições, reinterpretações e modelos de homenagem lançados no mercado houve alguns relógios que se destacaram pelo bom gosto e respeito pela herança histórica – como o
Grande Reverso Ultra-Thin Tribute to 1931 e o
Tribute to Deepsea, da
Jaeger-LeCoultre.
O
Panerai Bronze Luminor Submersible é também um excelente exemplo de um modelo de inspiração
vintage que aproveita o ADN da marca para apresentar um relógio que até ganha patina com os anos – a caixa em bronze fica mais ‘madura’ à medida que o tempo passa…
(Panerai Bronze Luminor Submersible)
Atualizações(Rolex Explorer II)
Não são propriamente reinterpretações ou modelos de homenagem – são mais atualizações de modelos icónicos, e nessa perspetiva sobressaem em 2011 o
Explorer II da Rolex, que estreou um novo tamanho na coleção da famosa marca (42 milímetros), e o incontornável
Royal Oak Offshore, da
Audemars Piguet, ligeiramente maior e com uma nova arquitetura para os botões do cronógrafo.
(Jaeger-LeCoultre Master Geographic)
O
Master Geographic da
Jaeger-LeCoultre também surgiu muito bem conseguido num tamanho mais elegante (apenas 39 milímetros) e até o
Speedmaster da
Omega apareceu renovado com uma caixa maior, somente dois contadores no mostrador e mecanismo dotado do sistema co-axial.
PersonalizaçõesNuma edição especialmente concebida para o mercado português (mas não só) que celebrou a associação de
André Villas-Boas à
Franck Muller enquanto embaixador da marca, o cronógrafo dedicado ao técnico portuense – que no seu primeiro ano no Futebol Clube do Porto arrecadou quatro títulos! – surgiu com uma estilização cromática muito bem conseguida.

(Franck Muller Cronógrafo André Villas-Boas)
ViajantesO modelo mais mediático de todos os
worldtimers apresentados em 2011 foi seguramente o
Patrimony Traditionelle World Time da
Vacheron Constantin, dotado de 37 fusos horários – incluindo aqueles de meia hora e quartos de hora.
(Breguet Classique Hora Mundi)
O mestre
François-Paul Journe também se aventurou nos múltiplos fusos horários com a criação do modelo
UTC e o
Breguet Classique Hora Mundi também faz parte dos grandes protagonistas do ano na especialidade.
(François-Paul Journe UTC)
Preço/QualidadeA relação preço/qualidade é sempre muito subjetiva e a sua otimização pode ser encontrada em todos os escalões, mas em época de recessão falamos mesmo de relógios mecânicos com classe e comercializados a um preço acessível.

(Raymond Weil Maestro Moophase)
Nesse aspeto, a
Raymond Weil destacou-se e o
Maestro Moonphase é um exemplo particularmente feliz. A
Marvin também apresentou interessantes modelos mecânicos de estilo contemporâneo (os
M120, desenhados por Jean-François Ruchonnet) abaixo dos 900 euros. Já os novos
DV One da
Versace destacam-se pelas novas cores, mas também recriação das suas linhas, numa muito apelativa utilização da cerâmica num design carismático e desportivo.
DesportivosOs cronógrafos continuam sempre muito populares e houve muitos novos modelos desvelados em 2011; a sua função cronográfica é, por inerência, desportiva e não admira que os cronógrafos tenham dominado a secção de relógios desportivos do ano juntamente com alguns modelos de mergulho. Ainda antes de celebrar os 40 anos do Royal Oak e os 20 anos do Royal Oak Offshore em 2012, a
Audemars Piguet apresentou um fabuloso
cronógrafo turbilhão com rotor periférico a par da renovada linha
Royal Oak Offshore.
(Linde Werdelin SpidoSpeed)Nas marcas independentes de nicho há a destacar o
SpidoSpeed da
Linde Werdelin, um cronógrafo mecânico de estilo contemporâneo cuja caixa esqueletizada pode receber um módulo computorizado para mergulho ou para a montanha. O
Mikrotimer e o
Mikrograph da
TAG Heuer também devem ser mencionados na linha dos cronógrafos desportivos de alta frequência, juntamente com o
Breguet Type XX e o
Zenith Striking 10th. Quanto à
Porsche Design distinguiu-se com as novas versões
Dashboard.
(Porsche Design P'6620 Dasboard)
IndependentesO
DB 28 da
De Bethune merece forte menção, até porque ganhou o principal prémio (Ponteiro de Ouro) nos Óscares da relojoaria – o Grand Prix d’Horlogerie de Genève. Trata-se de um relógio com uma interpretação vanguardista da arte relojoeira com todos os códigos identificativos ao estilo Belle Époque da marca, incluindo lua esférica e caixa em titânio com asas flutuantes.

(MB&F Legacy Machine - LM1)
Laurent Ferrier, antigo mestre relojoeiro da Patek Philippe, tem assumido protagonismo e o
Galet Micro-Rotor Entre Ponts é admirável de classicismo – mas a grande surpresa da segunda metade do ano entre as marcas independentes foi dada por
Max Büsser, que lançou o seu primeiro
Legacy Machine (LM1) num evidente contraste clássico com a folia experimental pós-moderna dos seus Horological Machine (HM).
DesignO notável
HL 2.0 da
Hautlence já tinha sido parcialmente desvelado em 2010, mas a sua apresentação foi concretizada em 2011 e merece claramente destaque pelo seu design não só da caixa como também do mecanismo; a arquitetura é relevada pela utilização assimétrica do vidro de safira nas partes laterais para permitir um melhor visionamento do calibre.
(Hautlence HL 2.0)
Já o
UR 1001 aplica todo o design conceptual da
Urwerk a um fascinante instrumento do tempo de bolso. Numa vertente mais clássica, o
Richard Lange Tourbillon Pour le Mérite da A.Lange & Söhne com mostrador deslizante também se incluiu no lote dos modelos mais destacados do ano.

(A.Lange & Söhne Richard Lange Tourbillon Pour le Mérite)
Poéticos e femininosO
Arceau Temps Suspendu, da
Hermès, incidiu sobre a relatividade do tempo e propôs mesmo a sua ‘suspensão’ graças a um deslizar no mostrador – uma complicação do género ‘poético’ que se tem visto muito nos últimos tempos no catálogo da
Van Cleef & Arpels. A
Cartier também continua muito forte no departamento dos relógios-jóia (e até complicados). E a criadora independente
Eva Leube foi mui to elogiada pelo seu feminino
Ari.
(Jaeger-LeCoultre Reverso Lady Ultra Thin)
Elegante e de linhas muito femininas também o
Reverso Lady Ultra Thin da
Jaeger-LeCoultre, que tem em Diane Kruger uma madrinha incondicional, surgiu como um nova versão do icónico modelo reversível muito apelativa e que acaba por ser sempre uma abordagem original no regresso dos relógios para senhora mais clássicos e discretos.
InfotenimentoO
Blackjack, de
Christophe Claret, é um autêntico casino de pulso – incluindo Black Jack, Roleta e Dados nas suas funções lúdicas. O mestre-criador está a dirigir a sua manufactura de mecanismos de excepção para uma produção própria que lhe exalta o nome, para além de fornecer algumas das mais famosas casas relojoeiras do mundo.
Quartzo(Jorg Hysek Slide)
Um intrometido de quartzo num elenco mecânico de luxo: o notável
Slide, de
Jorg Hysek, que aplica os princípios táteis do iPhone num produto vanguardista que esteticamente é bem conseguido e que despertou a cobiça até do mais empedernido admirador da relojoaria tradicional mecânica.