Tuesday, December 15, 2009

125 anos do Meridiano de Referência de Greenwich, por Fernando Correia de Oliveira*

Em 1912, José Nunes da Mata editava A nova hora e os fusos horários. Este professor, director da Escola Naval e membro do Senado, que tinha dado parecer favorável à adesão do país ao sistema baseado no meridiano zero de Greenwich, achou-se na obrigação de dar uma rápida explicação conducente a facilitar a execução do decreto de 26 de Maio de 1911”, legislação aprovada pelo Governo provisório republicano e que viria a ser confirmada no ano seguinte.

Pode-se dizer que este homem foi o 'pai' da Hora moderna portuguesa. É ele mesmo quem relata: “Em princípio do mês de Fevereiro de 1911, fomos chamados ao Estoril pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, o sr. Bernardino Machado [...]. Aproveitámos, então, a ocasião para lhe dizer que era de toda a urgência que a República adoptasse a hora internacional, visto já ter sido adoptada por quase todas as nações civilizadas do velho e do novo mundo, e pedimos-lhe para nos dizer por qual dos ministérios conviria melhor que o assunto fosse tratado, se pelo Fomento, se pelo dos Estrangeiros... [...]. Decorridos uns quinze dias [...] entregámos um borrão de um projecto de lei relativo à adopção da nova hora [...] ao ministro da Justiça, sr. Afonso Costa [...]. Em meados de Abril, encontrámo-nos no largo do Município com o Presidente do Governo Provisório, sr. Teófilo Braga, que nos perguntou a razão porque ainda não estava adoptada a nova hora, pois lhe constava que estávamos encarregado de fazer progredir a útil reforma”.

Quanto à nova contagem seguida das horas, desaparecendo os conceitos mais vagos de “manhã” e “tarde”, José Nunes da Mata afirmava: “Ninguém tenha dúvidas a este respeito: a contagem das horas será em toda a parte, dentro de algumas dezenas de anos, das 0 às 24”. E acrescentava: “Para Portugal deve ser motivo de orgulho o ter adoptado a contagem seguida das horas, sem estar humildemente à espera do exemplo da França e da Inglaterra. Até que uma vez houve uma reforma em que não ficámos na retaguarda das nações civilizadas, e antes quase na vanguarda!”
Para um Portugal ainda muito rural e pouco cosmopolita, onde os relógios batiam religiosamente 13, 14, 15, 16… badaladas quando marcavam as horas depois do meio-dia, a revolução era de monta. Mas José Nunes da Mata insistia: “Pelo que diz respeito ao facto de os relógios baterem as horas apenas até 12, não nos parece que apresente o menor inconveniente, e pode isto servir até de auxílio aos que encontram dificuldade em estabelecer a correspondência entre as horas actuais da tarde e noite e as antigas.”

Esta é uma boa altura para recordar os esforços de Nunes da Mata para que Portugal aderisse ao sistema internacional de fusos horários. É que, a 22 de Outubro passado comemoraram-se precisamente os 125 anos da Conferência Internacional do Primeiro Meridiano, em Washington D. C., Estados Unidos, ocorrida em 1884. Nela, ficou definido por votação que o meridiano de Greenwich passaria a funcionar como Meridiano de referência para todo o mundo.

A partir dessa altura, para os países que aceitassem a norma, a longitude 0° passaria pelo Observatório Real de Greenwich, nos arredores de Londres. Além disso, o globo passava a estar dividido em 24 'gomos' - os fusos horários - com uma hora ou 15 graus cada um. Os fusos horários seriam contados positivamente para leste, e negativamente para oeste, até ao Meridiano de 180º - o Anti-Meridiano, situado no Oceano Pacífico, onde seria a Linha Internacional de Data.


Deve-se a Erástenes (276-196 AC) a base do sistema de coordenadas que ainda hoje se usa e que permite definir um lugar na superfície do globo, por uma latitude e por uma longitude. Se a questão da latitude sempre foi pacífica, medindo-se a partir dos zero graus do Equador, para norte e para sul, já a da longitude demorou muito mais tempo a padronizar-se.

No tempo dos Descobrimentos, para o desenho de cartas e portulanos, o conceito de meridiano zero era empregue com a sua localização naquele que passava pela ilha do Ferro, a mais ocidental do arquipélago das Canárias, daí resultado, por exemplo, o célebre Tratado de Tordesilhas. Mercator, em 1569, usou como meridiano zero as ilhas de Cabo Verde. No século XVIII proliferaram os meridianos zero, a partir de Londres, Paris, Madeira. O de Greenwich parece ter sido utilizado pela primeira vez numa carta editada em 1738.

Em Portugal, por essa altura, era considerado como meridiano zero o que passava pelo seu observatório astronómico principal. Então, era o que estava instalado no Castelo de São Jorge (e posteriormente o da Tapada da Ajuda). No Congresso Internacional de Geografia, em Antuérpia, em 1871, já tinha sido proposto o meridiano de Greenwich como referência internacional para a contagem da longitude (devido ao prestígio que atingira o observatório aí instalado).

No Congresso Internacional de Ciências Geográficas de 1881, em Veneza, foi formalmente pedido às nações para que se pronunciassem sobre o meridiano zero que achavam ser o mais lógico para si.

No ano seguinte, o Ministério português dos Negócios Estrangeiros remetia o assunto para a Sociedade de Geografia de Lisboa, para que se pronunciasse, “tendo em vista não só a questão da longitude, mas particularmente a das horas e datas”, como explica o relator da Secção Náutica da Sociedade, Ferreira de Almeida, no opúsculo A Questão do Meridiano Universal (1883). A Sociedade, por seu turno, decidiu “consultar catorze estabelecimentos e associações de sábios”. De todas elas, dez escolheram o meridiano de Greenwich, uma, o da ilha do Ferro, uma, o da ilha do Pico, e duas, um meridiano a determinar.

Em face deste resultado, a Sociedade de Geografia de Lisboa, em decisão de 16 de Março de 1883, assinada por Luciano Cordeiro, seu secretário perpétuo, votou pelo meridiano de Greenwich, como meridiano primário universal.

A questão da escolha da localização do meridiano zero não era, como se calcula, pacífica, dadas as rivalidades entre as potências.

A Associação Comercial de Lisboa, que também tinha sido chamada a pronunciar-se (pois as relações comerciais e comunicações internacionais só podiam ter alguma lógica quando todos se entendessem sobre a padronização de hora e data), delegou o seu parecer na Sociedade de Geografia mas não deixou de dizer na nota emitida para o efeito: “A questão seria fácil de resolver se não fossem as susceptibilidades particulares [...]. Mas se aos diferentes povos que fazem uso de um primeiro meridiano nacional repugna adoptar um outro, só porque em vez de passar pelo seu território atravessa o de outra potência, onde se encontrará no mundo um ponto absolutamente neutro, seja cidade, observatório, pico, rocha ou cabo, que não esteja no domínio de uma nacionalidade qualquer, e que, por conseguinte, não dê argumento para levantar susceptibilidades?”

Portugal não aderiu em 1884 à Convenção de Washington, continuando a utilizar a hora solar média do meridiano de Lisboa, a qual diferia da hora de Greenwich em menos 36 minutos 44 segundos e 68 centésimos.

Como se pode perceber ao ler as instruções regulamentares de 1891 e 1892 relativas às horas e duração de serviço nas estações dependentes da Direcção Geral dos Correios, Telégrafos e Faróis. Elas estabelecem que
“[...] a hora, em todas as estações, será a média oficial contada pelo meridiano do Real Observatório Astronómico de Lisboa; nas principais cidades do reino e em quaisquer pontos do país, quando a conveniência do serviço público aconselhar, serão estabelecidos postos cronométricos destinados a fazer conhecer a hora média oficial.” Assim, a hora oficial era transmitida diariamente do Observatório à estação central dos telégrafos de Lisboa e desta sucessivamente a todas as estações telegráficas do continente e ilhas adjacentes.

Só em 1911, pelo decreto-lei de 24 de Maio se previu a subordinação da hora legal de todo o território português ao meridiano principal de referência, de acordo com a convenção de Washington.

A partir de 1 de Janeiro de 1912, todos os serviços públicos e particulares, possuidores de relógios internos e externos, passam a ser regulados e acertados pela hora legal estabelecida nos termos anteriores, cabendo-lhes o dever de tornar pública a informação horária. Foi nesta data que os relógios nacionais foram adiantados os tais 36 minutos 44 segundos e 68 centésimos, a diferença de tempo entre os meridianos de Greenwich e de Lisboa.

De notar que um dos primeiros testemunhos literários do tempo unificado, dos fusos horários, é A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne, obra escrita em 1873, antes da instituição internacional do sistema de fusos horários, que no entanto já se praticava no seio do Império Britânico.
O Meridiano de Greenwich atravessa dois continentes e sete países. (na Europa: Reino Unido, França e Espanha; e na África: Argélia, Mali, Burkina Faso e Gana). O seu anti-meridiano é o meridiano 180, que coincide fugazmente com a irregular Linha Internacional de Data, cruza uma parte da Rússia no estreito de Bering e uma das ilhas do arquipélago de Fiji, no Oceano Pacífico.
Do ponto de vista da relojoaria, nascia também um novo campo nas complicações: o dar, para além de um tempo local, um segundo tempo ou mesmo todos os tempos. Falamos das funções GMT e Horas do Mundo. A primeira dá o tempo num segundo fuso horário, a segunda indica em simultâneo o tempo nos 24 fusos horários. São das complicações relojoeiras ainda hoje verdadeiramente úteis, sobretudo para viajantes.

*Jornalista e investigador da área do Tempo, da Relojoaria e da evolução das Mentalidades

Friday, December 11, 2009

Graham a Graham…, por Miguel Seabra

… enche Eric Loth o papo. Esta semana, o presidente da marca relojoeira de inspiração anglo-suíça celebrou com entusiasmo mais uma aposta vencedora: a parceria com a escuderia BrawnGP, que no seu ano de estreia na Fórmula 1 arrecadou os títulos mundiais de pilotos e construtores – merecendo plenamente mais dois relógios comemorativos.

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Há histórias que parecem predestinadas ao sucesso. A da parceria entre a Graham e a BrawnGP é uma delas – começando pela similitude das cores do respectivo branding (preto, branco e amarelo, embora com ligeira diferença na tonalidade) até ao tamanho comparável de duas pequenas empresas que se souberam impor num mercado global dominado pelos gigantes da indústria à escala planetária.

Sempre admirei a Graham pela coragem em assumir uma ousadia britânica que lhe permitiu personificar a irreverência de ícones da moda como Vivienne Westwood ou da música como os Rolling Stones em relógios verdadeiramente surpreendentes. Não é por acaso que escrevo estas linhas com um Graham Swordfish no pulso: acabei mesmo por me render à originalidade da marca dirigida por Eric Loth, o entusiasta patrão da marca que é não só um apaixonado pela cultura inglesa como também um fervoroso aficionado do desporto automóvel. Não admira que, no início desta semana, estivesse radiante como anfitrião dos dois súbditos de Sua Majestade que lhe deram – indirectamente – o título mundial de Fórmula 1.

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A visita às instalações da Graham em La Chaux-de-Fonds já estava programada há algum tempo, mas só pôde acontecer após a ressaca vitoriosa da BrawnGP (no ano de estreia, ganhou o título mundial de construtores e o de pilotos com Jensen Button) e a consequente concretização da venda à Mercedes por uma soma estimada em 150 milhões de euros. Ross Brawn, o discreto mas eficaz líder da escuderia, e Nick Fry, o seu carismático director executivo, ficaram deslumbrados com uma mecânica de outro género mas com a qual encontraram muitas afinidades. Primeiro, na sede, deleitaram-se com os dois novos modelos dedicados à parceria campeã; depois, nos ateliers da manufactura de mecanismos La Joux-Perret, na parte inferior do mesmo edifício, aprofundaram os seus conhecimentos sobre os meandros das complicações relojoeiras numa apresentação do director Frederic Wenger.

A celebração
A visita dos líderes da BrawnGP à Graham em La Chaux-de-Fonds foi acompanhada apenas por dois grupos de media – a Espiral TV, com o repórter de imagem Nuno Santana, e uma equipa de reportagem contratada pelo distribuidor da marca para a América Latina. À tarde, a celebração de um ano de patrocínio vitorioso seria feita diante de uma plateia bem mais alargada de profissionais da comunicação da relojoaria e dos automóveis… mas em Neuchâtel, a 20 km.

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E foi no belo Hotel Beau Rivage de Neuchâtel, sede da selecção portuguesa de futebol no Euro 2008, que começámos por entrevistar exclusivamente os protagonistas da parceria: Ross Brawn, um homem incrivelmente discreto e de comportamento modesto para quem já ganhou tanto; Nick Fry, mais à vontade enquanto comunicador; e Éric Loth, sempre esfusiante e muito orgulhoso. Todos estabeleceram paralelismos entre os mecanismos relojoeiros e os motores dos bólides, fazendo também comparações acertadas entre a Graham e a BrawnGP – empresas privadas e independentes sem receio de arriscar, que não precisam de budgets astronómicos para vencer e com uma enorme paixão pelo ‘métier’.

Depois do almoço, deu-se então a conferência de imprensa que comemorou a inolvidável primeira época da associação entre a BrawnGP e a Graham, sendo também apresentados os dois novos modelos em edição limitada dedicados à parceria consegrada campeã mundial: o Tourbillograph Trackmaster BrawnGP (sendo entregues modelos com gravação personalizada a Ross Brawn e a Nick Fry) e o Silverstone Trackmaster Year One (com DNA dos bólidos de Formula 1 integrado no mostrador).
Mediante a compra da BrawnGP pela Mercedes e subsequente mudança de nome da escuderia para o campeonato de 2010, Eric Loth frisou o especial valor de colecção dos relógios Graham/BrawnGP – com Nick Fry a salientar: «A Brawn é caso único na história da Fórmula 1, já que é a única escuderia com um registo 100 por cento vitorioso!». A associação multi-anual com a Graham foi confirmada, embora sem ser revelada a sua extensão; o que foi revelado, não por Eric Loth mas por Ross Brawn e por Nick Fry, é que a cor dos bólides para a próxima época terá uma importante componente prateada – cor típica da Mercedes – e, naturalmente, adivinha-se que as próximas edições limitadas da Graham também reflictam essa nova tonalidade.

Ross Brawn contou a história do nascimento da Brawn, que em Dezembro de 2008 não existia sequer porque a sua equipa tinha sido desmantelada pela Honda e enfrentava o desemprego até resolver comprar a infrastrutura de Fórmula 1 e fundar uma escuderia com o seu nome que três meses depois ganharia o primeiro Grande Prémio da época de 2009; também revelou que no início foram sondados por muitas marcas relojoeiras de destaque mas que optou pela Graham, que se mostrou capaz de resolver situações rapidamente devido à sua estrutura pequena e elástica («a Graham mexeu-se à velocidade de um Fórmula 1»); e confessou que o melhor piloto de Fórmula 1 que jamais viu em pista foi Michael Schumacher – não só pelo puro talento para conduzir e pela velocidade inata, mas também pela confiança cega em si mesmo e por ter levado o seu profissionalismo a extremos nunca antes vistos, tanto no relacionamento com a equipa de mecânicos, como sobretudo pelo seu investimento na preparação física específica para a actividade. A sua escolha não é de admirar: Ross Brawn e Michael Schumacher ganharam juntos dois títulos mundiais na Benetton e depois mais cinco na Ferrari!

Os relógios comemorativos
O fruto das sinergias entre a Graham e a BrawnGP, após uma sensacional época que, pelo meio, resultou no lançamento de dois modelos em edição limitada - um com base no Chronofighter, outro no Silverstone - que estão agora disponíveis em Portugal exclusivamente na Machado Joalheiro.

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Os modelos apresentados
No âmbito das comemorações do sucesso do primeiro ano de parceria, foram apresentados mais dois modelos:
O Tourbillograph Trackmaster BrawnGP surgirá declinado em 200 exemplares com mostrador branco e outros 200 com mostrador preto. Apresenta a combinação do cronógrafo com o turbilhão, que é rara mas não inédita – a novidade é que se trata de um calibre de corda automática e que o turbilhão, protegido por duas patentes e com um peso inferior a meia-grama para as 48 peças que o compõem, é extremamente robusto e pode ser utilizado em actividades mais radicais… ao contrário dos demais turbilhões, demasiado delicados. «É um turbilhão de uso diário e com um preço menos inacessível», afirmou Eric Loth.

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Eric Loth com parte da carrosseria de um dos carros da BrawnGP que foi, literalmente, utilizada no Silverstone Trackmaster Year One.

O Silverstone Trackmaster Year One («Year One… and last», brincou Nick Fry) é um cronógrafo que também tem as mesmas declinações (250 exemplares com mostrador branco, 250 em preto), mas apresenta como especificidade original o facto de o contador dos minutos assentar sobre uma rodela retirada da carrosseria de um dos dois bólides BrawnGP que em Monza conseguiram a dobradinha. A maior parte das rodelas tem branco e preto ou branco e amarelo… mas há somente cerca de 20 exemplares que têm as três cores na rodela, e esses serão seguramente os mais cobiçados.

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Modelos só disponíveis em 2010

Enfim, dois modelos especiais de corrida que consagram condignamente um ano de gloriosa coexistência. Mas, como tive a oportunidade de dizer a Éric Loth durante a conferência de imprensa, gostaria também de ver uma edição comemorativa que incluísse o modelo Swordfish – o meu preferido da marca. O presidente da Graham não descartou a hipótese, mas sublinhou que tanto o Chronofighter como o Silverstone e o Tourbillograph têm mais afinidades com o universo mecânico e que o Swordfish é um modelo mais artístico. E aí fiquei a perceber porque é que tirei o curso de História da Arte em vez do de Engenharia Mecânica…

Thursday, December 3, 2009

Noite de celebrações, por Miguel Seabra

Valeu uma gripe (que não a A) e valeu a pena, regressar a uma fria e chuvosa Londres dois dias após lá ter passado uma semana noutras andanças. E depois de ter acompanhado os melhores tenistas do mundo nas Finais ATP, assisti a uma forte demonstração de vitalidade por parte de duas empresas líderes nos respectivos rankings – a TAG Heuer e a McLaren.

As comemorações do 150º aniversário começaram com grande pompa antes mesmo de 2010 – depois da apresentação do revolucionário Monaco V4 no seu quartel-general de La Chaux-de-Fonds em Outubro, no segundo dia de Dezembro a TAG Heuer foi ao quartel-general de um dos seus parceiros de longa data apresentar uma reedição de um modelo histórico, desvelar um novo mecanismo de manufactura e revalidar uma parceria que se estende há já 25 anos. Nada que não se soubesse já ou que não se antecipasse entretanto, mas a operação montada pela conhecida marca relojoeira suíça no McLaren Technology Centre, a cerca de 40 quilómetros de Londres, foi um rotundo sucesso que fez a ponte entre um passado distinto e um futuro risonho.

Na verdade, mesmo sabendo já de antemão que a TAG Heuer iria apresentar uma reedição do seu cronógrafo Silverstone e anunciar um novo calibre cronográfico, parti para Woking com a sensação de que algo que me iria surpreender. E, por mais que estivesse preparado para a grandiosidade arquitectónica da autoria de Norman Foster, não pude deixar de ficar embasbacado com a combinação entre a estrutura do edifício e o meio-ambiente – o McLaren Technology Centre é mesmo algo de fabuloso! Para aumentar o espanto, a TAG Heuer e a McLaren deram mesmo as mãos numa visita guiada à mais de uma centena de convidados dos mais diferentes pontos do planeta: em cada paragem da visita eram evidenciados paralelismos entre as duas empresas, como por exemplo os engenheiros que explicavam os segredos da caixa de velocidade dos bólides de Fórmula 1 para logo ao lado os relojoeiros mostrarem o modo de funcionamento do novo mecanismo de roda de colunas. E o incrível é que durante a visita via-se gente a trabalhar, mesmo sendo já oito horas da noite: ali, as oficinas funcionam 24 horas por dia e 7 dias por semana, chegando-se ao detalhe de os trabalhadores vestirem todos a mesma roupa Hugo Boss preparada com fechos protegidos para não arriscar qualquer risco nas peças…
No final da volta ao centro, efectuada em grande velocidade e liderada por um rapaz britânico que parecia o vocalista dos Blur e que tinha óculos Oakley em vez de TAG Heuer (heresia!), passámos para o segundo cocktail da noite que antecedeu o anúncio oficial da efeméride.

Subiram para o palco o presidente honorário Jack Heuer, o presidente executivo Jean-Christophe Babin, o presidente Ron Dennis e o manager da equipa de Fórmula 1, Martin Whithmarsh, que trocaram galhardetes e elogios até que… se ouviu um poderoso roncar – e não, não era a barriga a dar horas de fome dos convidados, era Lewis Hamilton, que estava a chegar num McLaren de 1986 que era de Alain Prost!

O jovem britânico ex-campeão mundial de Fórmula 1 também subiu para o palco, mostrando-se disponível e entusiasta; vinha com uma das duas novas reedições do Silverstone no pulso (a azul), tendo confessado que o seu relógio preferido é o cronógrafo Grand Carrera «porque é imponente e pesado», e que quando prepara o físico opta por usar «um TAG Heuer Formula 1 com bracelete de cauchu». Jean-Christophe Babin perguntou-lhe então se já conhecia antes o Silverstone, ao que Hamilton responseu: «sim, vi-o no museu!». Babin regozijou-se: «Excelente memória». E Hamilton espalhou-se: «Sim, vi-o no museu da TAG Heuer em Genebra». Pois, o relógio está no museu… que é em La Chaux-de-Fonds. Mas não faz mal, o seu patrão Ron Dennis também passou a noite a dizer que Édouard Heuer era pai de Jack Heuer, quando na realidade era avô.
E depois avançámos para o jantar, percorrendo um longo trajecto ladeado por vários bólides da McLaren referentes a diversos campeonatos do mundo de Fórmula 1 ao longo das últimas décadas até chegarmos a uma longa e comprida mesa de repasto. Depois da refeição e à partida para o regresso ao hotel, dois presentes – o novo livro da TAG Heuer que celebra os 150 anos da marca e o livro da McLaren que apresenta o seu Technology Centre.


Escalpelizando um pouco as novidades anunciadas:

Silverstone
Sempre adorei a colecção de reedições históricas da TAG Heuer e gostei da reedição do Silverstone, originalmente lançado em 1974 e talvez a principal vedeta da noite no McLaren Technology Centre; o design é típico dos anos 70 e não é um relógio fácil: ou se ama, ou se detesta… mas é necessário percebê-lo, enquadrá-lo no design característico daquela década e apreciar a grande qualidade de construção da caixa para gostar dele. E trata-se mesmo de uma versão incrivelmente fiel ao original, quando eu talvez gostasse de ver um ou outro pormenor mais ‘contemporaneizado’.



A história do Silverstone é engraçada: como o Monaco tinha um design tão avançado para a altura e apresentava-se tão cheio de arestas, foi pedido a Jack Heuer um modelo que suavizasse as linhas rectas do célebre modelo quadrilátero. E surgiu o novo formato, do tipo ecrã de TV, tão ao gosto da altura…








Limitado a 1860 exemplares em castanho e outros tantos em azul, o Silverstone também recupera o histórico branding Heuer (até no fecho de báscula) vigente até à compra da marca pela Techniques d’Avant Garde em 1984 e retomado em 1996 para a primeira reedição histórica do Carrera e em 1998 para a primeira do Monaco.







O mecanismo cronográfico modular Dubois-Dépraz com coroa à esquerda também tenta ser fiel ao original (embora sem o micro-rotor). E atenção: o novo Heuer Silverstone não terá sequelas ou re-reedições: Jean-Christophe Babin disse-me que vão destruir a maquinaria concebida para realizar a caixa.




Calibre 1887

Jean-Christophe Babin já me havia revelado no Grand Prix d’Horlogerie de Genéve em 2008 que a TAG Heuer se preparava para lançar um novo calibre cronográfico com roda de colunas.
O mecanismo foi desvelado, mas vai ser necessário esperar por Basileia para saber em que modelo ele será estreado. Stéphane Linder, do departamento de marketing e desenvolvimento de produto, garante-me que é o cronógrafo de accionamento mais rápido do mercado – dois milésimos de segundo mais rápido do que qualquer outro a arrancar a contagem de um determinado período de tempo… enfim, 2/1000 de segundo pode ser a diferença entre um tempo e um recorde, entre uma vitória e uma derrota. Estou ansioso para ver qual será o primeiro modelo a albergar o novo calibre!

Conjunto MERIDIIST e Grand Carrera

Também apresentado, mas pessoalmente por Jean-Christophe Babin na entrevista que me concedeu na manhã seguinte (e também revelado nos press releases fornecidos), foi o luxuoso conjunto formado por um telemóvel TAG Heuer Meridiist e por um cronógrafo Grand Carrera 17 Calibre RS a condizer com um estojo desenhado pela Pinel & Pinel, que inclui moinho para o relógio e entrada USB para carregar o telemóvel. Tudo em preto e com detalhes/pespontos/forro em laranja. Um conjunto muito vitaminado que mostra a vitalidade da TAG Heuer… e que foi inspirado por uma edição limitada de um estojo MERIDIIST+Grand Carrera lançada há uns meses atrás em Portugal!

Enfim, para arranque das comemorações dos 150 anos da TAG Heuer, a iniciativa londrina não esteve nada mal. Esteve mesmo muito bem! Vamos ver que mais surpresas, eventos e produtos se seguirão…

Cheers from London,
Miguel

Tuesday, November 3, 2009

Entrevista Espiral do Tempo: Philippe Merk

O CEO da Audemars Piguet fala-nos da incursão pelo mundo das Artes e da Cultura através da recente parceria entre a marca e o Teatro Bolshoi.

A Audemars Piguet tem estado sobretudo ligada a patrocínios nas áreas desportivas. A que se deve agora esta mudança de orientação?
A plataforma ou vector de comunicação da Cultura e das Artes é algo que não tinha sido ainda muito elaborado em termos da nossa estratégia de patrocínios, no entanto, penso que temos um interesse em falar a estes consumidores finais. Esperamos e acreditamos que não se sobreponha totalmente ao que temos em termos de plataformas desportivas. Nós vemos como uma sinergia, como um inteligente acréscimo ao que já temos e se nós encontrarmos novos projectos noutros países, nós certamente iremos reforçá-la.

Quais são os pontos específicos em que Bolshoi poderá influenciar a Audemars Piguet?
Eu penso que os pontos específicos obviamente são aqueles em que nos deveríamos sentir inspirados como relojoeiros. Quando vemos isso, e estamos inspirados, eu penso que é como um gatilho o interesse, o nosso interesse como relojoeiros para originar , talvez, um relógio que esteja particularmente ligado ao Bolshoi. Isso é certamente algo em que pensamos. Penso que queremos ver como irá correr ao longo destes três anos. Se se provar como um sucesso, poderemos continuar.

Podemos esperar ver daqui a uns tempos um grande relógio Audemars Piguet aqui em Bolshoi?
Talvez em algumas localizações, em algumas salas onde temos os espaços VIP iremos ver isso. Mas como pode imaginar, as históricas dimensões destes edifícios também aqui têm que ficar como elas são. Têm substância, têm uma herança. E nós podemos tocá-las e torná-las ainda mais belas algumas vezes com determinados relógios, mas temos de ser criteriosos nisso.

Entrevista Espiral do Tempo: Eric Loth

O responsável da Graham revelou como as raízes britânicas estão na base das associações da marca ao râguebi e à Fórmula 1.

O Chronofighter pode ser considerado o modelo líder e um dos mais carismático da Graham. Pode falar-nos da evolução, das características principais e das declinações da linha Chronofighter?
O Chronofighter está realmente a tornar-se o ícone da marca. É um produto icónico. Nas suas origens nós procurámos desenvolver algo, criar algo. Naquela altura, há dez anos, foi considerado como tendo funções muito avançadas e um design um pouco extremo. Agora está a tornar-se cada vez mais num clássico. Surpreendentemente, as pessoas começaram a acostumar-se ao seu design, começaram a habituar-se à sua estética, às suas funções. Já não fazem mais perguntas como “é uma granada”, que era uma espécie de piada dos primeiros tempos. Agora acabou-se, é visto como um cronógrafo. As pessoas sabem que é um cronógrafo, que tem até uma forma divertida de activação única no mercado o que se tornou natural para a marca. Essa é a razão pela qual não desenvolvemos assim tantas novidades ou mudanças extremas no seu design. Temos procurado torná-lo cada vez mais num clássico, mas usando apenas um toque britânico, como as cores, por exemplo. Utiliza-se o verde na luneta que além de ser vistoso, tem muito de britânico. Não são apenas as funções que têm força, mas também o produto em si, através das cores, da mistura de materiais tornando-se muito luxuoso. Já não é um grande golpe no negócio, agora tornou-se compreendido. Gosto de sentir, principalmente com os GMT, onde sinto que os produtos se estão a tornar icónicos e aceites pela maioria. Noutros tempos, um ícone era reservado a uma fracção pequena de pessoas. Agora há cada vez mais pessoas a entrar no nosso mundo.

Foram criadas diversas declinações para diferentes universos...
É lógico que quando se inventa uma nova forma de conceber um cronógrafo, se procura descobrir a sua potencialidade em diversas áreas. Num primeiro momento, procurou-se um cronógrafo dito normal, depois seguiram-se cronógrafos específicos para corridas, até que se pensou na utilização do titânio para cronógrafos que tendem a ser usados por árbitros – caso do râguebi – ou por pilotos. Seguiu-se o contexto de mergulho. Com os mergulhadores, a questão a fazer é diferente: Este metal é bom, mas podemos usá-lo debaixo de água? A resposta é sim. Acabámos por ter uma série de mergulhadores não profissionais a usarem o cronógrafo até 50 metros de profundidade. Obviamente que poderiam descer mais, até cerca de 350 metros, uma vez que ele é estanque, mas de qualquer forma, o cronógrafo de mergulho tornou-se um ícone por poder ser usado debaixo de água, algo que muito cronógrafos não permitem. É um produto que pode ser usado em diferentes ambientes e o seu sistema intuitivo faz com que as opções Graham se tornem válidas e confiáveis. Não é apenas algo que desenvolvemos para se diferenciar é algo que desenvolvemos porque o cronógrafo é melhor para usarmos de forma intuitiva. Todos estes pontos de vista foram utilizados e confirmados pelos clientes e por isso o produto começou a ser aceite. Acabou por se tornar um emblema. Mas continua a ser o o cronógrafo mais racional que existe no mercado.

O Swordfish é um relógio com um aspecto e espírito completamente diferentes. Fale-nos um pouco da sua arquitectura de estilo e do novo modelo que surge agora redimensionado?
Em relação ao Chronofighter fomos tão racionais de ponto de vista técnico e uso intuitivo como já expliquei, que entrámos no projecto Swordfish com um designer irlandês que tinha um grande conhecimento do free thinking britânico que desbravou novos caminhos nas artes, na música, na moda. O forte dos ingleses consiste em transmitir uma ideia de luxo que inclui sempre um detalhe de ruptura, em inventar algo que a princípio parece irracional mas que com o tempo se revela lógico e se transforma em paradigma.
Esta é a história do Swordfish. Demos a nós próprios a liberdade de criação. A única exigência que eu tinha era trabalhar com o vidro de safira porque gosto da sua transparência, da sua força, é um material muito mágico. Não é apenas uma peça de arquitectural, é feito para ser visto, todos os dias. Seja qual for o ângulo adoptado, encontram-se detalhes. A um determinado ponto achámos que seria melhor manufacturar a peça separando técnica e design e então podemos ir mais longe em termos de acabamentos, de arquitectura e de trabalho de adaptação ao pulso. Se a Graham não fosse uma marca de raízes inglesas, nunca chegaríamos a este ponto.

E a linha Silverstone?
Para mim é muio fácil falar da linha Silverstone por estar ligada a velhas paixões minhas. Para além da relojoaria, que é a minha primeira paixão, eu gosto muito de corridas. Eu sou um piloto, talvez não seja o melhor, mas gosto de entrar no carro, fazer com que tudo aconteça e levar a adrenalina ao máximo. Nas corridas, as cores têm um papel essencial: as equipas reconhecem-se pelas cores porque elas são diferentes. Na minha perspectiva as cores são muito importantes. As funções são primordiais, mas também é necessário reconhecer. Para tal os números são insuficientes, por isso, o que salta mais à vista - mesmo em corridas como a Fórmula 1 ou corridas GT - são as cores: todos os carros têm uma cor diferente. Este aspecto dá um carácter atractivo à corrida os próprios pilotos têm assim mais facilidade em se aperceberem quem os está a ultrapassar ou quem estão a ultrapassar. Isto inspira-me. As cores da corrida, os detalhes técnicos, a sofisticação extrema. É necessário conhecer muito bem o carro. Travões, pneus, tudo. Eis a razão pela qual o relógio é como é. O Silverstone é o cronógrafo mais complicado que existe em termos de dimensão industrial. Tem uma data grande porque é mais fácil ler, tem um segundo fuso horário, que é uma das principais funções, depois tem um cronógrafo, função essencial para o contexto de corrida, com os segundos e minutos bem demarcados, e uma função flyback que permite medir uma volta e precisar de imediato se estivemos bem ou estivemos mal nessa volta. É necessário apenas um botão para os ponteiros retornarem a zero. Não é necessário pressionar Start, depois Stop e depois Reset. Tudo isto motiva-me muito na concepção dos modelos Silverstone. O Graham Silverstone não é um relógio electrónico, é um relógio mecânico, tal como um carro. Quanto mais se corre – como na Fórmula 1 - mais elementos mecânicos se encontram e menos elementos electrónicos. E é interessante esta ideia de dar o máximo ao nível técnico num relógio, muito bem pensado mecanicamente, mas também muito funcional com cores bem marcadas. Todos estas aspectos se encontram na linha Silvestone.

O que levou a Graham a associar-se ao mundo do râguebi?
O râguebi foi a primeira grande acção que nós fizemos. Pensámos no râguebi por ser uma modalidade secular, viril, de prestígio, com muito fair-play, onde os árbitros são completamente respeitado e, neste sentido é um desporto muio britânico. Mas tem piada o facto desta disciplina nunca ter atraído o sector relojoeiro, talvez por ser muito como a Graham: muito à frente. Apreciamos muito este aspecto. O râguebi não pode ser manipulado. Nele interagem homens robustos, fortes, que jogam de acordo com regras, mas onde há uma componente de rudeza. Entrámos em contacto com o nosso distribuidor inglês, que fez a ponte para a organização. Todos acharam uma excelente ideia e fomos os primeiros a pensar assim. O Torneio das Seis Nações é uma enorme organização e comemora o seu 100º aniversário no próximo ano – na sua origem integrava apenas cinco nações e a Itália aderiu há cerca de 10 anos. Há mais de dois milhões de espectadores por jogo durante o campeonato das Seis Nações. Seguimos então em frente e agora estamos integrados. E o que é que se vê? Todos os árbitros usam um Graham. Fizemos uma edição limitada pensada para eles. O modelo é em titânio para ser mais leve; os árbitros já têm de correr muito! Os contornos inconfundíveis do Chronofighter Six Nations são bem visíveis através das imagens e nota-se bem quando os árbitros accionam a alavanca que inicia a cronometragem. Os próprios árbitros asseguram-me com entusiasmo que finalmente têm um cronógrafo que podem accionar sem ter de olhar para ele, tamanha é a facilidade de utilização. Temos aqui uma oportunidade: a incursão numa modalidade histórica, muito britânica, muito masculina e de grande fair-play. Sinto-me muito bem lá e continuaremos no próximo ano.

Em relação à Fórmula 1, com toda a componente britânica e ADN racing da Graham, foi igualmente uma associação genial...
Nós não entrámos na Fórmula 1, nós fizemos uma parceria com a Brawn GP. Existe uma equipa de Fórmula 1 e nós estamos interessados nessa colaboração porque a Brawn GP, Ross Brawn, a Graham e eu próprio funcionamos muito bem todos juntos. Estamos a encontrar caminhos. Eles provaram no primeiro ano que conseguiam. Nós não sabemos porque, nesta altura ainda faltam duas corridas - Brasil e Abu Dabi - mas há algumas hipóteses de conquistarem o título. Mas não é por acaso que isto acontece, porque eles têm trabalhado muito tecnicamente, eles têm novos conceitos, eles quebraram algumas regras, exactamente como nós. Esta é a razão pela qual quando me encontro com Ross e discutimos algum assunto, é fácil entrarmos em acordo, muito rapidamente. O melhor da nossa associação é que ultrapassa em muito o marketing, as edições limitadas de relógios ou a inscrição Graham nos retrovisores dos carros – eles têm paixão pela micromecânica relojoeira e adoram colaborar, com sugestões acerca dos materiais e das soluções estéticas. É uma permuta que inclui visitas mútuas às nossas instalações e às deles. Esta partilha, motiva-nos. Claro que a visibilidade da Brawn GP na Fórmula 1 é enorme e se olharmos para as incrições Graham nos espelhos de Jenson Button e Rubens Barrichello, vê-se que a Graham está reforçar a sua marca através desta parceria britânica, uma vez que a Brawn é uma equipa inglesa por herança e por gestão e nós somos uma ingleses por herança e parte do capital. É por isso que nos sentimos tão bem juntos e e penso que nos está a ajudar e penso que também pode ajudar a Brawn a desenvolver a sua imagem porque este também é o primeiro ano para eles. Não é apenas um passo na Fórmula 1 é realmente caminhar com uma equipa britânica e isso é bom porque eles ganham e eu gosto.

Também foi desenvolvida uma colecção Brawn GP...
Fizemos uma edição limitada em conjuntos de 100 exemplares de quatro modelos diferentes que estamos agora a distribuir no mercado o que sognifica que apenas alguns pontos terão acesso a esta edição. Mas já estamos a planear novos produtos, todos edições limitadas, com um design desenvolvido por nós e inspirado nos carros de Ross Brawn com a sua aprovação. E estamos a pensar numa colaboração em termos técnicos para as próximas edições limitadas. Queremos fazer com que o próximo projecto se revele como algo de único que reflita a associação entre duas equipas britânicas – uma de relojoaria e outra da Fórmula 1 – para a concepção de novos produtos.

Qual é a sua perspectiva face ao mercado português?
Para mim Portugal tem algo de pessoal, porque é um lugar onde vou quase todos os anos de férias. Gosto do Algarve, gosto das pessoas, vocês têm imensos campos de golfe, a costa marítima é fantástica, a comida é fantástica, os vinhos que têm lá são fantásticos - um em particular, o Pape que bebi há uma semana atrás é inacreditável, é óptimo. Isto é tudo Portugal. Tem algo de pessoal. O mercado obviamente é distante dos EUA ou Japão, mas é um mercado onde encontramos pessoas apaixonadas que respondem às nossas próprias paixões. Há uma diferença em termos de dimensão de mercado em relação a outros países, mas a qualidade das relações estabelecidas é também muito importante para o nosso aperfeiçoamento. É isto que eu encontro em Portugal: uma qualidade de relações que permite à Graham evoluir. Mais do que umas férias, espero um dia poder desenvolver um evento lá, como um evento de competição automóvel.

Monday, November 2, 2009

"O Fazedor"*, por Paula Moura Pinheiro


Dizem os conhecedores que François-Paul Journe, o marselhês radicado em Genebra, está entre os cinco melhores relojoeiros do mundo. Mas o que torna único o seu caso é muito mais do que o seu talento singular, é uma ousadia rara. Marcámos encontro em Genebra, Rue de l’Arquebuse.

As mãos de François-Paul Journe são enormes. Duas grandes fateixas nodosas como nunca se suporia ser possível num relojoeiro. Mais tarde, dir-me-ão que um relógio se faz com a cabeça. Com ideias. Não exige dedos de pianista. E a verdade é que François-Paul Journe é um virtuoso que criou alguns dos mais revolucionários movimentos da alta-relojoaria das últimas décadas: Chronomètre à Résonnance e Tourbillon ‘Secondes Mortes’. Com as suas mãos, sim, mas sobretudo, e sempre, com a sua cabeça.
Não, François-Paul Journe não é um herdeiro, não é um dos altos-burgueses recostados no brilho de um apelido famoso pelas criações de homens mortos há muito, como os que encontramos no selecto meio da alta-relojoaria suíça, com a sua dicção perfeita, os seus cabelos loiros grisalhos, as suas impecáveis gravatas de seda e os seus exércitos privados de técnicos e especialistas. François-Paul Journe é homem que se apresenta de bata azul-escura, como um mecânico de automóveis, com o rosto talhado de um marinheiro, o olhar cerrado de um franco-atirador e a dureza provocadora dos self-made. Um marselhês radicado em Genebra que, como ele mesmo conta, poderia ter sido marceneiro, porque detestava a escola, mas que as circunstâncias familiares (um tio restaurador) conduziram à relojoaria. Um marselhês cuja audácia o levou a dar o salto que, há já várias gerações, ninguém se atrevia a dar: François-Paul Journe fundou a sua própria Casa, a sua marca, a sua assinatura. Usou, para isso, não o poder do capital, que não tinha, mas o poder do saber, o seu exímio conhecimento do métier e a sua capacidade inventiva, que lhe valeram a aposta e o investimento dos sempre necessários capitalistas.
François-Paul Journe ‘inventou e fez’, expressão que, em latim (Invenit et Fecit), é a insígnia da Casa F.P.Journe, que integra o logotipo da marca e que mandou bordar no peito da sua bata azul-escura, para que ninguém esqueça a diferença: são criações suas os mecanismos dos relógios que levam o seu nome.
O século XX, sobretudo a segunda metade do século XX, tratou de cindir radicalmente estas duas dimensões: quem tem o poder financeiro contrata o talento, mas raramente o talento encontra condições para se estabelecer autonomamente. É o império dos produtores sobre os realizadores, a subordinação do comercial ao criativo. Desde a idade de ouro da relojoaria, há cerca de duzentos anos, que não se testemunhava esta ousadia: o inventor dos movimentos, das caixas, dos mostradores, das complicações relojoeiras assumir, também, a produção dessas invenções.
É como se um cientista montasse o seu próprio laboratório e tratasse de comercializar as suas descobertas.
François-Paul Journe fê-lo há cerca de seis anos. Quando tinha pouco mais de 40, e, hoje, os 700 relógios que produz por ano são objecto de uma renhida procura por parte dos mais esclarecidos coleccionadores. Gente disposta a pagar 200 mil euros por um relógio de pulso, em ouro ou platina, mas sem diamantes.
Na Rue de l’Arquebuse, no centro de Genebra, o edifício de dois andares do século XIX onde funciona a oficina F.P.Journe é uma espécie de metáfora da conquista suada de François--Paul. Adquirido com inquilinos, tem sido um permanente ‘work in progress’ – as obras avançam à medida que os inquilinos vão saindo, e o espaço da oficina tem sido ganho assim, taco a taco, sem que alguma vez se tenha parado de produzir.
Na sua impecável bata azul-escura, François--Paul conduz a visita guiada pelos intestinos
desmantelados do prédio. Atravessa, orgulhoso, a cacofonia das máquinas afagadoras, dos berbequins, o cheiro agudo da madeira nova, detém-se nos projectos da electricidade, do aquecimento, do sistema de aspiração do pó – conhece cada milímetro daquela casa como se fosse uma extensão do seu próprio corpo. Está a construí-la, como ao seu nome. Com o máximo de empenho e na pista da excelência, o edifício e o modus operandi da produção estão a ser investidos da melhor tecnologia disponível.
Entrincheirados na zona onde, por agora, funciona toda a produção, em aquários de vidro e madeira, jovens cabeças desviam os olhos das lupas, curiosos à nossa passagem. François-Paul não tem mais de 40 artesãos e prefere-os recém--saídos das escolas de relojoaria, ou ainda estudantes, para poder ser ele a ensiná-los à sua maneira. Tem planos para criar a sua própria escola nas instalações futuras da oficina. Ele, que viu descolar a sua paixão e a sua ciência sob o impulso de um velho tio, reputado restaurador relojoeiro com atelier em Saint-Germain-des-Prés, sabe melhor que ninguém que a boa formação em relojoaria, para lá da escola especializada – que também fez, em Marselha primeiro, em Paris depois – não dispensa a tutela de um mestre nem o trabalho contínuo em contexto real.
Claro que o génio é outra coisa. Apesar de ter revelado, desde o início, grande facilidade para a mecânica, foram precisos alguns anos para que nele emergisse a febre da invenção. Não muitos anos. Trabalhava em Paris com o tio, em relíquias que conhecedores do mundo inteiro vinham entregar-lhes para recuperar, quando começou a conceber, paralelamente, de moto próprio, o seu primeiro relógio: de bolso, com turbilhão. Acabou-o mais de um ano depois, em 1982, tinha 25 anos. O seu segundo original nasceu em 83 e o terceiro em 1984. Em 1985, instala-se por conta própria, no seu primeiro atelier, na Rue de Verneuil, em Paris. Aceita encomendas para criar relógios singulares, já está quase exclusivamente na calha da concepção, só admite restauros excepcionais. Nos anos seguintes constrói um relógio de pulso planetário, um relógio de sala para John Asprey, ganha prémios importantes, associa-se a um grupo de amigos e começa uma manufactura na Suíça. Investigam e concebem para as marcas.
Em 1991, cria um relógio de pulso com o mostrador descentrado que, passado pouco
tempo, as grandes casas relojoeiras começam a copiar algo descaradamente. François-Paul não tem qualquer hipótese de combater os gigantes. Sente-se, segundo diz, como um pequeno barco à mercê dos caprichos do mar. A irritação, a frustração de ver as suas criações desenvolvidas e exploradas por terceiros começam a espicaçá-lo. Não pára de inventar, mas está tomado pela ideia de assinar aquilo que cria.
Em 1999, lança a primeira colecção com o seu ‘ferro’: uma colecção de cronómetros com
a chancela F.P. Journe, que já leva a insígnia Invenit et Fecit. Ainda em 1999, apresenta o primeiro relógio de pulso com turbilhão e corda de igualdade com a chancela J.P. Journe. É, portanto, em 1999 que nasce a Casa F.P. Journe.
O salto está dado. Não se livra ainda de ver as suas ideias aplicadas, com pequenas variações, pelos golias do sector, mas os conhecedores já identificam um genuíno F.P. Journe. E, sem
que ninguém o assuma, François-Paul Journe é a nova ameaça no meio.
Não que tenha a intenção de crescer muito mais. Firmar-se como um nome incontorná-
vel da alta-relojoaria, fundar a sua própria escola e chegar aos 1300 relógios por ano são as
metas que se impôs. Não é a ambição de um industrial. É a ambição, bem mais delicada e complexa, de um autor. «Só quero andar suficientemente depressa para cortar caminho a quem me copia».

* Publicado em Espiral do Tempo. Nº 17

De Gutenberg a Le Corbusier, por Fernando Correia de Oliveira*

Estação cronográfica

A profissão de relojoeiro tem sido, ao longo da História, viveiro de mentes criativas e base técnica para outros voos, nas mais variadas actividades. Como temos vindo a demonstrar nesta série de artigos «Utopia Mecânica», as comunidades relojoeiras têm sido, elas próprias, fonte de inspiração de movimentos filosóficos, sociais e políticos, dada a especificidade deste universo que sempre se rodeou de saber, precisão e solidariedade.
Façamos, pois, um ‘vol d’oiseau’ sobre mais algumas personalidades que tiveram relação directa com a relojoaria.
Para começar, Johann Gutenberg (1400-1468), nascido na Alemanha, no seio de uma família que se dedicava à transformação de metais. O inventor da tipografia pertenceu à guilda dos ourives de Mainz, sua terra natal, e a sua experiência no fabrico de peças de relojoaria, que tinham de obedecer a critérios de qualidade e homologação, ajudou-o na execução da ideia dos tipos móveis que eram, neste caso, em madeira e que, depois de alinhados, imprimiam os textos na folha de papel. Isto através de prensas de rosca, já anteriormente usadas na prensagem de uvas ou de azeitonas.
Já Henry Ford (1863-1947) revolucionou a maneira como se fabricavam automóveis, criando a linha de produção – operários especializados passaram a montar peças num chassis, por determinada ordem e num ritmo predeterminado, poupando tempo. Isto só foi possível porque as peças estavam estandardizadas e eram intercambiáveis. E onde foi Ford buscar estas ideias? À relojoaria.
O futuro fundador da primeira grande fábrica de produção em massa de automóveis foi relojoeiro, na juventude. Segundo reza a lenda, era mesmo um relojoeiro de eleição, capaz de montar e desmontar, de olhos vendados, um relógio de bolso. Terá mesmo chegado a inventar um relógio de bolso que iria vender a um dólar, mas nunca chegou a produzi-lo, porque pensou que as pessoas não acreditariam que se tratava de algo de qualidade, sendo o preço tão baixo.
O interesse de Henry Ford pela relojoaria não se esbateria com o sucesso que fez dele um dos grandes capitães da indústria do século XX norte-americano. Ford mandou construir, em 1935, o Swiss Chalet, em Greenfield Village, Dearborn, no Michigan, uma vivenda inspirada na arquitectura suíça do Jura, e onde eram feitos e reparados relógios. Pierre Cartier, seu amigo, dono da casa Cartier, ajudou-o nesse projecto. A casa ainda existe, faz parte do complexo do Museu Henry Ford e alberga cerca de 100 peças de relojoaria.
Ainda no ramo automóvel, há Louis Chevrolet, que poucos sabem ser suíço. Nascido em 1878, faleceu em 1941, nos Estados Unidos. Filho de um relojoeiro, Chevrolet era natural de La Chaux-de-Fonds, cidade bem no coração da indústria relojoeira helvética. Durante a juventude, foi também relojoeiro, ajudando na oficina do pai, passando, depois, a construir, reparar e correr em bicicletas. Isto até descobrir o mundo dos automóveis. Emigrou em 1900 para o Canadá e, depois, para os Estados Unidos, onde aliava a profissão de mecânico à de piloto de competição. Correu com carros da General Motors, até que o fundador da GM, W. C. Durant, se desligou da companhia e criou uma nova. Nasceu a Chevrolet Motor Car Company, em honra ao seu engenheiro-chefe, pessoa que encarregou de fazer «o carro dos seus sonhos». Chevrolet viria a abandonar a companhia em 1913, por não querer fazer carros baratos, mas apenas automóveis de eleição, porém a marca ficou, até hoje, lembrando o seu nome.
Por falar de La Chaux-de-Fonds, um conterrâneo de Chevrolet teve também as suas raízes na relojoaria, mas alcançou a fama na arquitectura. Charles-Edouard Jeanneret, que escolheu para si a alcunha ‘Le Corbusier’. «Aquele que se parece com um corvo» nasceu na cidade relojoeira encravada no Jura, e era filho de um relojoeiro local e de uma professora de piano. Graduado pela escola de artes aplicadas local, nela aprendeu o ofício de gravador de caixas de relógios, tendo ganho prémios internacionais nessa actividade. Le Corbusier prossegue, ali, estudos em arquitectura, decoração monumental e decoração de interiores. Data de 1905 a construção da sua primeira vivenda em La Chaux-de-Fonds. A cidade orgulha-se de um património arquitectónico vasto, fruto da actividade de Le Corbusier na região.

*Investigador do Tempo, da Relojoaria e das Mentalidades