Dizem os conhecedores que François-Paul Journe, o marselhês radicado em Genebra, está entre os cinco melhores relojoeiros do mundo. Mas o que torna único o seu caso é muito mais do que o seu talento singular, é uma ousadia rara. Marcámos encontro em Genebra, Rue de l’Arquebuse.As mãos de François-Paul Journe são enormes. Duas grandes fateixas nodosas como nunca se suporia ser possível num relojoeiro. Mais tarde, dir-me-ão que um relógio se faz com a cabeça. Com ideias. Não exige dedos de pianista. E a verdade é que François-Paul Journe é um virtuoso que criou alguns dos mais revolucionários movimentos da alta-relojoaria das últimas décadas: Chronomètre à Résonnance e Tourbillon ‘Secondes Mortes’. Com as suas mãos, sim, mas sobretudo, e sempre, com a sua cabeça.
Não, François-Paul Journe não é um herdeiro, não é um dos altos-burgueses recostados no brilho de um apelido famoso pelas criações de homens mortos há muito, como os que encontramos no selecto meio da alta-relojoaria suíça, com a sua dicção perfeita, os seus cabelos loiros grisalhos, as suas impecáveis gravatas de seda e os seus exércitos privados de técnicos e especialistas. François-Paul Journe é homem que se apresenta de bata azul-escura, como um mecânico de automóveis, com o rosto talhado de um marinheiro, o olhar cerrado de um franco-atirador e a dureza provocadora dos self-made. Um marselhês radicado em Genebra que, como ele mesmo conta, poderia ter sido marceneiro, porque detestava a escola, mas que as circunstâncias familiares (um tio restaurador) conduziram à relojoaria. Um marselhês cuja audácia o levou a dar o salto que, há já várias gerações, ninguém se atrevia a dar: François-Paul Journe fundou a sua própria Casa, a sua marca, a sua assinatura. Usou, para isso, não o poder do capital, que não tinha, mas o poder do saber, o seu exímio conhecimento do métier e a sua capacidade inventiva, que lhe valeram a aposta e o investimento dos sempre necessários capitalistas.
François-Paul Journe ‘inventou e fez’, expressão que, em latim (Invenit et Fecit), é a insígnia da Casa F.P.Journe, que integra o logotipo da marca e que mandou bordar no peito da sua bata azul-escura, para que ninguém esqueça a diferença: são criações suas os mecanismos dos relógios que levam o seu nome.
O século XX, sobretudo a segunda metade do século XX, tratou de cindir radicalmente estas duas dimensões: quem tem o poder financeiro contrata o talento, mas raramente o talento encontra condições para se estabelecer autonomamente. É o império dos produtores sobre os realizadores, a subordinação do comercial ao criativo. Desde a idade de ouro da relojoaria, há cerca de duzentos anos, que não se testemunhava esta ousadia: o inventor dos movimentos, das caixas, dos mostradores, das complicações relojoeiras assumir, também, a produção dessas invenções.
É como se um cientista montasse o seu próprio laboratório e tratasse de comercializar as suas descobertas.
François-Paul Journe fê-lo há cerca de seis anos. Quando tinha pouco mais de 40, e, hoje, os 700 relógios que produz por ano são objecto de uma renhida procura por parte dos mais esclarecidos coleccionadores. Gente disposta a pagar 200 mil euros por um relógio de pulso, em ouro ou platina, mas sem diamantes.
Na Rue de l’Arquebuse, no centro de Genebra, o edifício de dois andares do século XIX onde funciona a oficina F.P.Journe é uma espécie de metáfora da conquista suada de François--Paul. Adquirido com inquilinos, tem sido um permanente ‘work in progress’ – as obras avançam à medida que os inquilinos vão saindo, e o espaço da oficina tem sido ganho assim, taco a taco, sem que alguma vez se tenha parado de produzir.
Na sua impecável bata azul-escura, François--Paul conduz a visita guiada pelos intestinos
desmantelados do prédio. Atravessa, orgulhoso, a cacofonia das máquinas afagadoras, dos berbequins, o cheiro agudo da madeira nova, detém-se nos projectos da electricidade, do aquecimento, do sistema de aspiração do pó – conhece cada milímetro daquela casa como se fosse uma extensão do seu próprio corpo. Está a construí-la, como ao seu nome. Com o máximo de empenho e na pista da excelência, o edifício e o modus operandi da produção estão a ser investidos da melhor tecnologia disponível.
Entrincheirados na zona onde, por agora, funciona toda a produção, em aquários de vidro e madeira, jovens cabeças desviam os olhos das lupas, curiosos à nossa passagem. François-Paul não tem mais de 40 artesãos e prefere-os recém--saídos das escolas de relojoaria, ou ainda estudantes, para poder ser ele a ensiná-los à sua maneira. Tem planos para criar a sua própria escola nas instalações futuras da oficina. Ele, que viu descolar a sua paixão e a sua ciência sob o impulso de um velho tio, reputado restaurador relojoeiro com atelier em Saint-Germain-des-Prés, sabe melhor que ninguém que a boa formação em relojoaria, para lá da escola especializada – que também fez, em Marselha primeiro, em Paris depois – não dispensa a tutela de um mestre nem o trabalho contínuo em contexto real.
Claro que o génio é outra coisa. Apesar de ter revelado, desde o início, grande facilidade para a mecânica, foram precisos alguns anos para que nele emergisse a febre da invenção. Não muitos anos. Trabalhava em Paris com o tio, em relíquias que conhecedores do mundo inteiro vinham entregar-lhes para recuperar, quando começou a conceber, paralelamente, de moto próprio, o seu primeiro relógio: de bolso, com turbilhão. Acabou-o mais de um ano depois, em 1982, tinha 25 anos. O seu segundo original nasceu em 83 e o terceiro em 1984. Em 1985, instala-se por conta própria, no seu primeiro atelier, na Rue de Verneuil, em Paris. Aceita encomendas para criar relógios singulares, já está quase exclusivamente na calha da concepção, só admite restauros excepcionais. Nos anos seguintes constrói um relógio de pulso planetário, um relógio de sala para John Asprey, ganha prémios importantes, associa-se a um grupo de amigos e começa uma manufactura na Suíça. Investigam e concebem para as marcas.
Em 1991, cria um relógio de pulso com o mostrador descentrado que, passado pouco
tempo, as grandes casas relojoeiras começam a copiar algo descaradamente. François-Paul não tem qualquer hipótese de combater os gigantes. Sente-se, segundo diz, como um pequeno barco à mercê dos caprichos do mar. A irritação, a frustração de ver as suas criações desenvolvidas e exploradas por terceiros começam a espicaçá-lo. Não pára de inventar, mas está tomado pela ideia de assinar aquilo que cria.
Em 1999, lança a primeira colecção com o seu ‘ferro’: uma colecção de cronómetros com
a chancela F.P. Journe, que já leva a insígnia Invenit et Fecit. Ainda em 1999, apresenta o primeiro relógio de pulso com turbilhão e corda de igualdade com a chancela J.P. Journe. É, portanto, em 1999 que nasce a Casa F.P. Journe.
O salto está dado. Não se livra ainda de ver as suas ideias aplicadas, com pequenas variações, pelos golias do sector, mas os conhecedores já identificam um genuíno F.P. Journe. E, sem
que ninguém o assuma, François-Paul Journe é a nova ameaça no meio.
Não que tenha a intenção de crescer muito mais. Firmar-se como um nome incontorná-
vel da alta-relojoaria, fundar a sua própria escola e chegar aos 1300 relógios por ano são as
metas que se impôs. Não é a ambição de um industrial. É a ambição, bem mais delicada e complexa, de um autor. «Só quero andar suficientemente depressa para cortar caminho a quem me copia».
* Publicado em Espiral do Tempo. Nº 17